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Entrevista: Makely Ka

Por Luciana Salles

CÓDIGO ABERTO

Sei que a vida é um código aberto
É a mediação de um conflito
A morte está cada vez mais perto
E cada segundo é infinito
Beduíno cruzando um deserto
Uma prece no templo dos aflitos

Também sei que viver é perigoso
Nunca houve uma época segura
O perigo também é prazeroso
Não se pode viver é na paúra
Esse círculo é um tanto vicioso
E não sei se há antídoto ou cura

Esse lance que é dado a descoberto
Nos eleva a uma outra quadratura
Misturando a certeza com o incerto
Confundindo a razão com a loucura
Eu soletro as letras do alfabeto
E não vejo sentido na leitura

Sei que a vida é um rio caudaloso
Sua navegação uma aventura
Uns vivendo com a corda no pescoço
Outros na corda bamba de pendura
Não preciso ir ao fundo desse poço
Posso imaginar sua fundura

O sistema é orgânico e nervoso
A origem de toda criatura

Um estado entre o sólido e o gasoso
Variando com a temperatura
O maná corre fluído e viscoso
Se endurece e não perde a ternura

Uma língua falada em dialeto
Onde não fica o dito por não dito
A palavra é o próprio objeto
Como ícone, pedra, monolito
Não tem disse-me-disse é papo reto
Pra valer não precisa estar escrito

Um desenho na prancha do arquiteto
O projeto de estranhas estruturas
Não há piso, paredes e nem teto
Pé-direito de grande envergadura
Não há vigas na vida de concreto
Não há regras pra essa arquitetura

Mas se tudo é apenas um esboço
E o amor infinito enquanto dura
Entre inconseqüente e cauteloso
Vou levando uma vida sem usura
A tensão que antecede sempre o gozo
Será minha medida e urdidura

 
Essa música é um martelo. Uma estrutura métrica muito comum no Nordeste, com versos de dez sílabas acentuados necessariamente na terceira, na sexta e na décima. Nós herdamos o martelo, que é um decassílabo, da poesia ibérica. É uma estrutura tão comum e consolidada na tradição de língua portuguesa que basta lembrar, por exemplo, o monumental Os Lusíadas de Camões, todo escrito em decassílabos. Essa acentuação dá o ritmo. (e canta a primeira estrofe). A acentuação te dá o ritmo. E a gente, sem saber, já tem essa estrutura no DNA. (MAKELY KA).
Makely Oliveira Soares Gomes, o Makely Ka, nasceu no ano de 1975 em Valência do Piauí, nordeste brasileiro. Filho de uma família de vaqueiros cresceu aboiando com o pai. Mas foi com o tio, Paulo, que aprendeu a tocar violão e tomou contato com a literatura, a filosofia e a música brasileira. Veio para Minas Gerais com a família quando ainda era garoto. Viveu em Barão de Cocais, Mariana, Ouro Preto e fixou-se em Belo Horizonte, cidade em vive até hoje e onde teve seus 3 filhos: Moreno, de seu casamento com a cantora Maísa Moura, e os gêmeos Ian e Nuno, de sua união com a produtora cultural Lailah Gouvêa.
Em Ouro Preto estudou física, geologia e filosofia, mas não concluiu nenhum dos cursos. Quando pequeno queria ser astronauta. Seu apetite pelo mundo, sua paixão pela cultura popular, seu compromisso com a militância, fazem de Makely um artista caleidoscópico, que tem na palavra sua fonte de inspiração, traduzida em poesia, canção, performance, imagem, discurso.
Foi na música que encontrou o melhor lugar para abrigar a palavra, embora tenha publicado dois livros: Objeto Livro (1998) e Ego Excêntrico (2003), acompanhado do CD Poemas de Ouvido. Gravou os discos “A outra cidade”(1999), em parceria com Pablo Castro e Kristoff Silva, e também “Autófago” (2008), seu primeiro disco autoral. Em 2012 sai em expedição pelo Grande Sertão, viagem que desemboca no disco “Cavalo Motor”, em 2014. Ao lado do parceiro Bruno Brum edita um periódico de poesia, a Revista de Autofagia, que traz referência explícita à publicação modernista editada na década de 20 por Oswald de Andrade, considerado por Makely como um dos maiores intelectuais brasileiros.
Gravado mormente por cantoras, dentre as quais encontram-se nomes como Alda Rezende, Titane, Ná Ozzetti, Juliana Perdigão, Dani Gurgel e Júlia Ribas, é também parceiro de compositores como Flávio Henrique, Rafael Martini, Marku Ribas, Estrela Leminski e Chico Amaral, apenas para citar alguns.
Em pouco mais de quatro horas de conversa falou de tudo um pouco. Amores, filhos, família, tropicália, Festivais de Inverno de Ouro Preto, viagens pelo mundo, militância política, preocupações ambientais, filosofia e sobre suas infalíveis técnicas para roubar livros, coisa que fez quando era adolescente em sua curiosidade de mundo, sobre o que conta entre risos. Diz o que pensa e com propriedade sobre quase tudo.
Nesta publicação destaca-se a sua expedição ao universo de Guimarães Rosa quando percorre os caminhos do Grande Sertão Veredas pedalando sua bicicleta. Foi nessa viagem que encontrou seu lugar no mundo e, especialmente, o lugar de sua música, que mora ali, entre a caatinga e o cerrado.
Confira alguns trechos da entrevista que Makely Ka concedeu à Luciana Salles, editora do Letras.
Você leu com facilidade o grande sertão?
Li a primeira vez aos 17 anos. Eu estava em Ouro Preto. Eu ia pro Pico do Itacolomi, pro mato… aí eu conseguia entrar no livro. Ele faz uma desconstrução do racionalismo da linguagem pra chegar no pensamento selvagem. Muita gente, depois que eu fiz a viagem (que gerou o trabalho Cavalo Motor), foi ler o livro. Umas dez pessoas me deram esse retorno, mas se queixaram da dificuldade. Eu dizia: leia duas ou três páginas sem entender. Esse entendimento é construído no inconsciente. Depois de algum tempo a sinapse vem.
A linguagem é o pensamento selvagem. Quando a gente verbaliza você já pegou o pensamento e codificou. A linguagem de Guimarães Rosa é como se fosse o pensamento pré-cognitivo. Eu tive muita noção disso andando nos caminhos do Sertão. É como se a linguagem dele (G.Rosa) fossem os caminhos. É tudo tortuoso. Mas, se você sabe a direção, você vai chegar. Não importa quantas voltas dê. Uma hora faz sentido o caminho que você fez. Às vezes eu tinha dúvida de qual caminho pegar. Quando eu me informava, sempre queria saber qual era o caminho mais bonito. Eu nunca fiz uma viagem de bicicleta pra cumprir meta de distância. Não faria sentido. Não tinha tempo certo. Em alguns lugares eu fiquei 3, 4 dias.
É um belo trabalho, o cavalo motor…
Sim… foi construído em 2 a 3 anos. Tive a ideia, comecei a compor, mas veio a história da viagem. Como uma imposição. Isso ficou muito claro pra mim enquanto viajava. Por causa da minha história de sertão. Meu avô era vaqueiro, meus tios pegavam gado no mato. Piauí é isso. Cultura do gado.
 “Cavalo motor”  é, em alguma medida, uma convergência de tudo o que você viveu?
Sempre fiz uma música que aqui era considerada muito nordestina. A cultura nordestina na minha casa sempre foi muito forte. Meu pai nunca se adaptou a Minas. Meu pai, família de vaqueiros, passava um mês levando gado para o Ceará. Era outra noção de tempo. O Euclides da Cunha fala do vaqueiro como um ser que parece enfadado. Parece que ele não tem iniciativa. De repente vê uma rês levantada e vira um Hércules. Monta num cavalo e sai! É como um gato que está na preguiça o dia inteiro e vira um tigre ao ver uma presa. Meu pai teve muitas dificuldades em se adaptar aqui. É porque ele tinha uma relação muito amorosa no nordeste que ele não tinha aqui. É claro que tinham outras compensações, mas o abraço… não tinha aqui.
A minha música sempre foi muito influenciada por isso. Tem a influência de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, mangue beat, Alceu, o povo do Ceará, Belchior, Jaguaribe, a música Armorial…
Chico Science foi um marco. Até o início dos anos 90 era proibido gostar de música brasileira na escola. Nas festas tocavam A-ha… era música gringa. Eu só ouvia música brasileira em casa, porque meu tio tocava no violão. Se você gostasse de música brasileira você era brega, ultrapassado. O Chico Science vem trazer a música brasileira de volta. Ele recupera o tropicalismo invertido. Ele retoma a coisa da raiz. E aí não era mais brega, não era mais feio gostar de cultura popular. E isso me parece muito pouco compreendido. Dona Celma do Côco, nos anos 80, ninguém ia ver o show. As pessoas tinham vergonha do congado. Isso era muito claro pra mim. As pessoas iam com camisa USA pra escola. A cultura popular era completamente menosprezada. Era o momento do Rock Brasil.
Você vivenciou o rock brasil?
Eu ouvi muito. Cazuza principalmente. Cazuza era uma referência muito forte pra mim. E claro que fui muito influenciado. Eu ouvia Michael Jackson, eu ouvia Led Zeppelin, ouvia Rock and Roll na veia. Eu era punk. Ouvia música gringa, mas lembro de eu, pequenininho, acompanhando o meu pai aboiando. Eu escutava ele cantando aqueles aboios. Meu pai chorava copiosamente – aquela coisa de imigrante, com muita saudade. Quando ele bebia ele abria a guarda e chorava. Porque tinha aquela carcaça toda, aquela coisa dura.  O nordestino tem isso, do homem que segura a pancada. Mas, quando ele bebia ele virava um menino. E chorava um nordeste que ele nunca mais encontrou, porque quando ele voltava, não era mais a mesma coisa.
Ao mesmo tempo eu tinha essa coisa forte da música nordestina, referência tanto musical quanto literária, das trovas, dos romances, da península ibérica, das antigas religiões, da cultura popular universal… coisas que meu tio me trouxe. As pessoas achavam que eu era muito nordestino. Em minas não reconhecem o elemento nordestino na minha música. Aqui não reconhecem os elementos mineiros. O sertão começa – ou termina – em Minas. O sertão… é lá que está.
Depois eu fui perceber que os primeiros povoamentos ali eram índios que vieram da Serra da Capivara, descendo o Espinhaço… foram os primeiros a povoar o noroeste de Minas. Fui percebendo, durante a viagem, que são dois biomas. Tem o cerrado. Mas, acima de Januária começa a transição para a caatinga. Essa transição entre cerrado e caatinga é chamada de carrasco. No carrasco tem muitos espinhos, mas ainda é verde. Fiz uma leitura linear e outra não linear. Eu quis fazer a viagem porque ela fazia a liga toda.
Velho… essa que é a minha música. É o carrasco. É exatamente essa transição. Eu não preciso sair daqui, porque está aqui. A chegada ali foi um momento muito mágico, porque foram mais de cem quilômetros na areia. Foi um trecho difícil da viagem, pra chegar num lugar que não tem energia elétrica, que as pessoas vivem noutro tempo… eu fui encontrar a raiz ibérica também, que outra relação forte que eu tenho é com a Galícia (estou gravando outro disco com os galegos, inclusive) e fui descobrir expressões no sertão que eu só havia ouvido na Galícia e que não passaram por Portugal. Minas tem uma relação muito grande com a Galícia… “Trem” não é falado em Portugal, por exemplo. Mas, na Galícia, eles usam “trem” como nós usamos. Não pra tudo, como a gente. Mas, pra muita coisa. Em Portugal é “comboio”.
Mas tem uma coisa que eu ouvi na Galícia. Num povoado, se você pergunta: Será que vai chover? Te respondem: É suscetível. Apetece de chuva. E você encontra isso também no sertão de Minas. São pessoas analfabetas. É uma relação direta com outro tempo. É linguagem arcaica. Você chega para o Seu Sebastião das Rabecas, Ribeirão das Areias, Serra das Araras e pergunta: Será que vai chover, Seu Sebastião? E ele responde: é suscetível que chova… (fala com voz de Seu Sebastião).
Você começa a identificar esses elementos de um arcaísmo contemporâneo, pessoas vivendo num outro tempo dentro do nosso próprio tempo. Fez um link todo. Fiz uma exposição de fotos em Cordisburgo, na Casa de Guimarães Rosa. Quero lançar um livro com as anotações que eu fiz na viagem, as reflexões.
Tem uma história que você colocou grécia e guimarães rosa no mesmo trabalho…
Quando eu estudava Filosofia, em Ouro Preto, a Guiomar de Grammont era minha orientadora. Eu tinha um trabalho sobre a Grécia de Homero. Eu fazia uma relação entre a Grécia e o Sertão. Num conto de Guimarães Rosa, chamado O Grivo, uma pessoa é contratada por um fazendeiro pra descobrir o mundo. Trazer respostas de tudo. Uma metáfora do próprio G. Rosa. Os vaqueiros que viajaram com ele, estive com eles, disseram que o Guimarães era um saco. Que ele perguntava sobre tudo. Queria saber o nome de cada capim, esse passarinho, esse córrego… perguntava tudo. Era quase uma psicopatia.
No trabalho sobre a Grécia Arcaica e o Sertão trabalhei a estrutura de construção dos poemas homéricos e a relação disso com a cultura popular dos Aedos, dos Rapsodos, e a relação da música ali. Eu pegava os epítetos homéricos. Daí eu fui para a viagem, do Grande Sertão – eu tinha saído do Fórum da Música de Minas – mas antes havíamos armado uma Noite Mineira na Grécia, para o ano seguinte. Eu saí num momento de briga com o Fora do Eixo, naquela discussão política. Eu pensei: agora eu posso entrar no edital do Música Minas, porque eu não estou mais no Fórum. Entrei e fui selecionado pelos gringos, porque a curadoria era toda de fora. Aí eu estava no Sertão quando recebi a notícia que faríamos um show na Grécia. Chamei o show de Presente de Grego. Esse show se desdobrou em caminhos também no leste europeu, na Lituânia, Letônia, Polônia, Turquia. E foi curioso isso de sair direto do Sertão pra Grécia. Tinha tudo a ver com a relação que eu havia construído lá atrás.
Você consegue viver da sua arte?
A gente tem que se virar. Eu não tenho um emprego fixo há muitos anos. Os meus três filhos estudam em escola particular. Faço acordo com as escolas… a gente vai se virando. Eu tenho meu trabalho. Toco menos do que eu gostaria, mas dou muitas oficinas. Desde oficinas sobre gestão de carreiras, feiras internacionais. Dei uma oficina na Oi Kabum sobre organização de expedições culturais.
Quero aproveitar esse gancho. O que você acha dessa convivência entre cultura e turismo?
Para a região noroeste, eu só vejo caminho pelo turismo. Turismo de base sustentável. Turismo comunitário. Por que ali, quando você fala em atividade predatória, é predatória mesmo.  De eucalipto. Mineração. Soja. Ali é barra pesadíssima. A gente não conhece o noroeste de Minas. É uma região inacessível. É mais fácil você chegar na Chapada Gaúcha ou em Brasília do que chegar lá. Porque tem asfalto. Daqui pra lá, Noroeste, não tem asfalto, por exemplo. É uma região que pela cultura, não vai. Não tem esse apelo.
Mas eu acho que um caminho é o Circuito Guimarães Rosa, que não existe, praticamente, e que eu acho gestado de forma muito equivocada. Ele poderia trazer um turismo internacional, esse turismo de base comunitária, que se a gente tivesse um cuidado mínimo, por que ali, o Parque Nacional do Grande Sertão, é dos mais bonitos do Brasil. Ao mesmo tempo ele faz limite com plantação de soja. Existe um conflito muito explícito. Eu não vejo outra saída a não ser por esse turismo cultural. Ou de aventuras, mas com o substrato da cultura, senão… arrasa. As pessoas não vão pra lá pra conhecer o Paredão, porque não tem nada lá. O que vale é a mística, o percurso que se cria em torno disso.
Você não tem medo de institucionalizar isso?
Não. Eu tenho medo é do que estão fazendo lá. Cada vez que você vai você vê os eucaliptos crescendo. Isso dá medo. Pode acabar antes de começar. Tem um projeto de uma barragem 7 km acima do rio do Sono. Ele passa num povoado. Fundamental para o Grande Sertão. Aí você vai construir barragens que não beneficiam ninguém, mas que pagam dívidas de campanhas. Elas não farão diferença pra energia nacional. Ali ainda tem surubim de 40 quilos. Sucuris de 16 metros. Várias comunidades quilombolas.  Aí você constrói 7 pequenas hidrelétricas ali, acabando com tudo isso. Mas, se você tem um turismo de aventura, mas com esse substrato, de dizer, olha, esse é o rio da entrada do Liso do Sussuarão. Quem leu o Grande Sertão sabe do que eu estou falando. É a obra mais importante da língua portuguesa no século 20. O que se sustenta o turismo na Irlanda? É o turismo literário.
E o direito autoral?
Você não precisa usar a obra. Você pode usar a referência. O meu disco não tem uma única citação. Ele é inspirado, é um diálogo. Eu não uso uma única frase do Grande Sertão (até porque eu odeio a forma como usam “frases de facebook” do Guimarães – tudo fora do contexto). Isso entra nas músicas de forma incidental, mas não é uma epígrafe de Guimarães Rosa. Mesmo porque, não precisa.
Mudando de assunto, o que você achou do bob dylan ganhar o nobel de literatura?
Achei ótimo!  A literatura começou como música, né? Como canção. Faz parte do processo.
Que momento surgiu a poesia na sua vida? Quando você vai para um festival em ouro preto, o que você está procurando?
Em Ouro Preto eu fiz um livrinho de poemas, o Objeto Livro, um livro metalinguístico, com forte influência da poesia concreta e da poesia marginal. O título, a orelha, o prefácio, as recomendações de uso, tudo envolve o livro como objeto. Foi naquele momento que eu conheci a Alice Ruiz. Eu tive uma namorada, a Mônica, que era curitibana e comadre da Alice. Me aproximei de Curitiba, da Estrela Leminski – as duas viraram minhas parceiras. Me envolvi com o pessoal da LAGARTA EDITORES, tinham uma agência de publicidade, mas eram todos poetas e músicos. Convivemos de perto. A Mônica havia convivido com Leminski. Ela tinha vindo dar aula de literatura na Ufop em Ouro Preto. Nessa época eu já estava estudando filosofia. Veio o Festival de Inverno e eu lancei esse livro.
Comecei a musicar os poemas dele e outros também, e percebi que funcionavam mais com canção e performance que o livro escrito. Embora eu tenha feito 200 cópias do livro e lançado ele dentro do festival, percebi que o show era mais impactante. Montei um trio com a Silvéria e o Leo, e formamos a Mandrágora. Quando eu vim pra BH eu trouxe a Sil e o Leo (que já era daqui). Era uma banda grande, 11 pessoas no palco, tocávamos nossas músicas. Daí eu fui morar com os Dragões, no Paraíso, uma casa coletiva com Renato Negrão, Serginho Borges, Eva Costa, Daniel Costa e o  Kristoff Silva, que chegou depois – foi quando começou a minha parceria com o Kris.
Muito cedo a palavra cantada surgiu na sua vida, né?
Eu me inspirava muito, nesse início, em dois poetas, que eram compositores que tinham uma vida que me inspirava também pela militância. O Leminski e o Torquato. O Torquato ainda tinha a coisa de ser um conterrâneo, um dos caras que foi um dos articuladores da Tropicália. Ele tinha uma coluna no Jornal do Brasil, a Geléia Geral, ele descia o cacete, ele falava, era um farol, apontava, ele era muito próximo do Oiticica, sabia o que estava acontecendo de revolucionário no mundo das artes plásticas, do cinema, era super vanguarda. Criticava o Cinema Novo ali nos anos 70. Arrumava briga com o Glauber Rocha, que era um cara que ninguém queria brigar com ele, pois era muito bélico e respeitado mundialmente. Então tinha uma admiração, sempre tive, por eles, o Torquato via Tropicalismo, o Leminski via poesia concreta.
Os irmãos campos, concretistas, também te inspiraram?
Muito. Totalmente. Eu fui atrás de tudo deles. Eles foram uma referência inclusive pra chegar no Leminski. Na Semana de Poesia de Vanguarda, realizada aqui pelo Afonso Ávila, no início dos anos 70, os irmãos Campos Vieram e o Leminski, aos 17 anos, veio aqui para BH. Ele conhece Ouro Preto, conhece os concretistas.
Quando fizemos um evento em homenagem ao Leminski, pelos 10 anos da morte dele, nós convidamos o Afonso Ávila, e ele leu uma carta inédita do Leminski pra ele, contando a maravilha que foi ter participado daquela semana aqui, pois foi o que mudou a cabeça dele. Foi um marco. Ele conheceu os Campos.
Artisticamente você se intitula como?
Sou compositor, cada vez mais eu tenho focado no trabalho de composição. As letras fazem parte disso. Fiz com o Rafael Martini os textos da Suíte Onírica. Fiz com o Kristoff Silva as letras do quarteto de cordas da Osesp. O Kris musicou e cantou.
Foi forte ouvir um coral, uma orquestra, cantando e tocando você?
O coral lírico canta em alemão, independente da língua (risos). É muito empostado. Eles ficam atrás da orquestra. Vira uma parede sonora e o canto já chega esburacado. Não entendi nada e acho que ninguém também entendeu. Mas, foi emocionante. Foi um impacto.
O Rafael Marini talvez seja o mais bem preparado dessa geração. Ele faz tudo muito bem. Ele tem um trânsito com a música popular. Parece que toda a trajetória dele foi preparatória praquilo. Tudo convergiu. Ele evoluiu muito rápido. Ele começou a tocar piano já dentro da Escola de Música da UFMG. O processo dele foi muito rápido. Ele compôs a Suíte em menos de 6 meses…
Eu estava em Mar del Plata quando a gente terminou, enviava as coisas pra ele pra ver se tinha encaixe. Eu dormia pensando naquilo e, quando eu acordava, não sei se por causa do tema, eu não sabia se eu tinha sonhado ou tinha escrito aquilo mesmo. Foi um processo maluco. A gente conversando… ele estava lendo Lacan, eu também, a gente discutindo sonhos, sempre estudei mitologia grega.
E o que está rolando agora?
Eu estou com um projeto, que é o Triste Entrópico, um disco que eu chamei o Paulinho Sartori, Tabajara Belo e o Yuri Vellasco. Montamos esse show, com referências dessa vivência com os índios, a imersão que eu fiz no Xingu. Participei de uns rituais. A referência da cultura negra foi também muito forte para mim, do tempo que eu fiquei em Cabo Verde, a pesquisa que estou fazendo também com Benin, e a relação de tudo isso com a Península. Então, Triste Entrópico, trocadilho com tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, é um posicionamento dessa visão antropológica. O Viveiros, tenho acompanhado muito o trabalho dele em livros e também na sua militância ambiental, a favor dos índios… esse disco, de alguma forma, é o resultado de tudo isso. Esse disco é até  tanto panfletário nesse sentido. Falo de aquecimento global, falo da expansão do agronegócio, consumo, carne, monocultura… é um disco panfletário.
E tudo bem para você, que seja um disco panfletário?
Foram as músicas que surgiram. Falo dos rios, da tragédia ambiental de Mariana. Tudo isso ficou muito presente na minha vida, sobretudo depois da minha viagem ao sertão. Essa relação intrínseca entre cultura, meio ambiente e perspectiva de futuro. Os governos trabalham como se o mundo fosse acabar em 4 anos. Ninguém trabalha sob uma perspectiva pensando daqui a 20, 30, 50 anos. Nós temos filhos, precisamos pensar nisso. Nós teremos uma crise hídrica grave nos próximos 10 anos ou até antes disso. Já estou pensando em comprar terreno que tem água, ensinar os filhos a plantar, para saberem viver de subsistência. Vou começar a gravar o disco agora.
Tenho outros dois projetos de discos. Um instrumental, toco viola. Só com temas que eu compus para dança, teatro, cinema e que só toco eventualmente. E tem um disco de viela de roda, também. Estou pensando, compondo.
Você não pára?
Não pode parar, né? Eu ainda tenho projetos de fazer o percurso de Belo Monte. Vai ser uma viagem longa que será registrada em áudio, vídeo e foto. Com certeza vai gerar frutos diversos. Iremos com bicicletas auto-sustentáveis, com sistemas de geração de energia. É um trabalho com energia limpa.
São duas fraturas no corpo social do país. Canudos, chacina do governo contra os sertanejos. Foram 40 mil famílias dizimadas. Em Belo Monte foram também 40 mil famílias arrancadas das ilhas. Essa ideia desenvolvimentista… pelos padrões de avaliação dos níveis de vida, eles viviam com menos de dois dólares por dia, considerados abaixo da linha da pobreza. Mas se alimentavam dali. Viviam na plenitude em sua relação com a floresta. Foram levadas para casas de alvenaria, saíram da linha da miséria, mas são muito mais miseráveis hoje. Estão doentes, infelizes, alcóolatras, altos índices de suicídio… que sociedade é essa?
O ambientalista é muito forte em você.
Quando você viaja de bicicleta, você está muito só e a velocidade é outra. Você está mais atento à natureza. Aos sons. Você não consegue ficar alheio.
E o que vem por aí?
O livro mais adiantado é o das ocupações. Vivi  isso muito de perto em Belo Horizonte – Dandara, Isidora, Espaço Comum Luiz Estrela, a Praia da Estação – e também ocupações em outras cidades do Brasil e do mundo, como Nova Iorque e Atenas. Participei ativamente das manifestações de 2013 e esse livro é o relato desse período, pois esses episódios se relacionam.
Tem também o registro do percurso do grande sertão. E tem um livro infantil. Eu criei um conto para os meus meninos, sobre um lobo que eu chamei de Lobo Guaraná. É uma história bonita.

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