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O maestro deste Carnaval chamado vida

Por Vinícius Lacerda*
Editoria Thiago Pereira
Particularmente, acho que não há vida sem música. E, obviamente, sem vida, a música não existe. Pode-se inferir, ao pensar nessas frases, que a música influencia muito na vida das pessoas (principalmente, se pensarmos em vida no sentido cotidiano). Eu, por exemplo, só ando de bicicleta com os fones de ouvido ligados (sim, isso é errado, não faça isso em casa!) porque a experiência para mim ao andar de bike passa pela música (ou a música passa por mim, vai saber). Sem a melodia, para mim não é andar de bike, é outra coisa.
Bem, a tentativa deste relato gira em torno de pensar em como a música é uma importante agenciadora de possibilidades para as subjetividades, proporcionadora fissuras e, com sorte, modificadora de modos de vida. Resumido, a música provoca, estimula, intensifica. Embora, certamente haja ocasiões que ela não provoque nada, acho que poucos questionariam o potencial transformador dela. Talvez a força da música fique clara quando olhamos para o Carnaval de Belo Horizonte, nosso querido e maravilhoso feriado momesco que saiu do ostracismo para as capas de jornais e que cresce, cresce, cresce…
A ideia não será de fazer um elogio a todo custo ao Carnaval de Belo Horizonte, mas sim olhar para ele como um potente movimento cultural intensificador de desejos tanto no âmbito molar (com relação à política, às instituições, por exemplo) quanto no molecular (a interação, o corpo suado na rua, o beijo, a fantasia, o tesão). É um palco múltiplo de devir-amor que sedia, entre outras coisas, aberturas para desejos trancafiados em salas escuras durante o ano todo por um sistema, no mínimo, perverso. “Enfim, livres! Que sejam assumidos os rostos que bem entendemos e tal como estamos!”
E, nesse mar agitado de forças, a música talvez desempenhe o papel que seria de um maestro. Mas não um regente com uma batuta nas mãos e um terno bonito no corpo, mas um maestro despido de regras, de roupas formais e sem ter local definido, que passa por várias áreas ativando sonhos, corpos e desejos por coincidência de percurso. Um maestro nômade e sem (ou com poucas) pretensões estéticas.
Um maestro que, no entanto, acompanha as fraturas do tempo e do espaço social que se desdobram no gosto popular e modificam instituições. Prova disso, é a abertura do Carnaval (quer queiram ou não) para estilos musicais como o sertanejo, funk, pagode, jazz e outros. O samba e o axé parecem prevalecer, mas não são únicos. E quem bom que esteja assim, é bom ter um maestro tão diverso quanto o seu país deve(ria) ser.
E essa diversidade musical, sem muita surpresa, arquiteta espaços profusos e com potencialidades revolucionárias singulares, em sentido estrito. Nas áreas periféricas da capital mineira, por exemplo, costumam circular blocos que construíram suas identidades baseadas em questões de ordem política, como o Tico Tico Serra Cota, Filhos de Tcha Tcha e PPK. São blocos pautados tanto pela música quanto pelas causas sociais e políticas da agenda que acompanham seus integrantes. Balança tanto corpos quanto estruturas discursivas.
O Centro, principalmente a Praça da Estação e entorno, é uma reunião-zona. Por lá, passam vários blocos, como o famoso Então Brilha! e o charmoso Desce a Ladeira, colocando no mesmo lugar milhares de pessoas. É emocionante ver a profusão de corpos se deslocando no espaço tão peculiar e importante para a vida social-política da cidade. Corpos seminus interagindo com outros. É a festa-política, que não deve ser diminuída, nem menosprezada.
Na Zona Leste, pequenos blocos se acumulam e cumprem seu papel de ocupar as ruas. Tem o simpático Unidos da Estrela da Morte, baseado na saga ”Star Wars”, que cresce a cada ano ocupando uma charmosa esquina com grandes árvores, que ora protegem do sol, ora da chuva, no bairro Floresta. São crianças e adultos fantasiados dos personagens do filme, mas também aparece todo tipo de fantasia, gente que não é fã, gente que quer carnaval.
Já na rua Pium-i, o som eletrônico e o funk ecoam pelas ruas que agregam os adolescentes que namoram sentido o som da música de seus ídolos que têm pouco mais ou menos que suas idades e, quiçá, vão sentir o primeiro toque do outro no corpo, aquele toque que faz estremecer e esquecer… por outro lado, concentrados dentro nos bares e com suas pulseiras que garantem a entrada e a saída, ficam os adultos. Fiquei pouco tempo observando esse ambiente, mas notei poucos flertes e muito grito na voz de todos ao cantar hits. Bem, prioridades.
Mas a intenção aqui não é cartografar os blocos – mesmo porque foram cerca de 250 somente na capital e não ousaria fazer isso – mas de mostrar como a música, ou melhor, o maestro do Carnaval, está presente, não conduzindo, mas incitando as pessoas a ocuparem lugares novos (no sentido topológico) e não serem levados àqueles locais projetados ou dados. O próprio caminhar nas ruas estreitas ou mesmo nas largas avenidas ilustra muito bem a sensação de encontro com o ignoto.
Comigo isso ficou bem claro em um bloco na região da Savassi, onde estão os mais topzeras (sem e com ironia aqui). Foi no estreante É o Amô e seus sertanejos propagados ao som do batuque típico do axé que passei por um momento o qual não vou esquecer. Estava lá acompanhado por quatro amigos e, a princípio, a ideia de ir para uma região que fica sempre muito cheia durante o Carnaval não me apetecia. Mas o paquera recém-conhecido cujo cheiro estava impregnado em minha memória estaria lá e me convidou para ir, então não hesitei muito.
A quantidade de pessoas começou a aumentar e aquele tumulto me pareceu estranho. Não por causa das pessoas em si, mas pela mudança de cenário. Explico. Estava em um cruzamento de avenidas que faz parte da minha rotina, onde eu passo diariamente de bicicleta (escutando música). Eu conheço bem o local: as partes do meio-fio danificadas, o tempo dos sinais, a moça da lanchonete e suas pendengas amorosas, alguns moradores de rua e sei também quantas pedaladas eu preciso para passar rápido antes que o sinal amarelo para pedestres torne-se vermelho (nessa altura acho que já ficou claro que não sou um bom exemplo de ciclista). Mas naquele momento estava bem cheio, como nunca tinha visto e, para minha surpresa, não ouvia nenhum som. Fiquei triste. Costumo falar que “bloco sem música vira procissão”.Nada contra essa manifestação, mas tive minha cota de caminhadas religiosas na infância.
Aos poucos, as mensagens do paquera diminuíram ao passo que a quantidade de pessoas aumentou assim como o volume do som lançado pelo gigante trio elétrico que se aproximava. Comprei uma cerveja para relaxar, mas a ansiedade causada pela espera surgia e crescia à medida que se tornava mais claro o quão difícil seria encontrar alguém em meio aquela multidão. E essa ansiedade começou a me incomodar muito (e acho que as pessoas que estavam comigo também). Justamente na festa reverenciadora da liberdade estava lá eu, me auto-trancafiando ‘na espera’ por alguém. Daí tive um pensamento profundo-reflexivo e importante que me foi útil para o restante do meu carnaval:  “Nemmmm fudendo…”.
É claro que não basta chegarmos a uma conclusão racional para nos tirar de um estado de ansiedade, quem dera. Mas a cerveja ajuda. E a pinga também. E entre e um outro, a importância do paquera decresceu enquanto eu começava a realmente escutar a música, aquelas melodias que tanto gostava quando era pequeno com letras que não reconhecia direito; notava a alegria nos olhares dispersos das pessoas, as fantasias que começam a se desmontar e ninguém dava menor importância, o importante era prosseguir. Vamos, vamos…
Vamos até não ter mais como se locomover. Ficou apertado ali em frente ao McDonalds, não dava para andar e a beleza de repente começou a brotar em outras lugares, afinal o empurra-empurra faz parte do Carnaval como um dos desdobramentos da atuação do maestro. Preso, na verdade, aflito numa muvuca que se movia lentamente como uma grande massa, fiquei surpreso ao ver que para muitas pessoas pareciam não se importar com aquela situação desconfortável. Havia uma garota com três amigas paradas no meio do bloco que conversavam sob sombrinhas ‘de época’ como se estivessem na sala de estar da casa de uma delas. Achei aquilo lindo e fiquei com um pouco de inveja. Era o maestro e tudo aquilo que ele provoca: lugares diferentes, sensações díspares, como disse acima.
Alguns minutos depois e com mais ar livre, a música “Evidências” começou a tocar. Finalmente reconheci uma. A canção é muito popular e me faz recordar da minha infância no interior. Lembrei de cara do meu avô paterno na fazenda aos fins de semana colocando sempre vinis para tocar e essa música era uma delas. Meu avô gostava muito de pinga, sempre bebia antes do almoço. Eu também gosto, embora prefira depois das refeições.
A música continuava, e eu caminhava com o restante do grupo. Os passos eram lentos, estávamos cansados e pouco conversávamos.
Assim, cenas da minha infância se apossaram de novo da minha mente. Lembrei dos meus pés sujos de barro depois de buscar os cavalos para o pai naquele imenso pasto. Era uma tarefa difícil para um garoto de 8, 9 anos, e não me agradava, mas não tinha escolha: tinha que fazer. No fim, sentia bem ao conseguir trazer os animais para o curral, missão cumprida! Eram dois, a Maravilha, uma mangalarga marchadora, e o Apalu; quarto de milha. Aí, quando retornava, bastava chegar na sede da fazenda para minha mãe começar a brigar comigo por causa dos pés sujos. Enquanto isso, a música da dupla Chitãozinho e Xororó ao fundo. Na verdade mesmo, não sei ao certo se esta cena aconteceu realmente ao som de ”Evidências”, mas não importa.
O importante é que essa música provocou naquele espaço, naquele momento em que olhei para baixo na avenida Getúlio Vargas, cerca de 26 anos depois daquela lembrança e notei que meus tênis estavam muito sujos. E, se por um lado, fiquei contente por entender que a sujeira era causada por trajeto que eu escolhi fazer, me dando uma sensação de autonomia, e que ninguém iria me repreender pela sujeira em mim; por outro, me perguntava onde estava a garra daquele garoto que trazia os cavalos para o curral daquele enorme pasto com tanto afinco? Seria apenas agora um homem adulto que optava pela espera, pela espera do bloco, pela espera do paquera?
A música para mim é assim: potente a ponto de nos fazer ir para lugares, voltar deles, ir de novo para um lugar similar, criar espaços, desvendar um sentimento, aumentar o tesão, despertar uma consciência política, apaziguar a raiva e por aí vai. E, nessas passagens, nesses deslocamentos, vamos nos formando em relação às vidas que nos cercam e construindo o mundo que erguemos em torno de nós.
*Vinícius Lacerda é mestre em Comunicação Social e jornalista. Seu foco de pesquisa é processos de subjetivação e gosta muito, muito de Carnaval.
 

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