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Um Osso de Morto [1]

Por Anna Palma e Marcela Gomes Batista
Editoria Alexia Teles Duchowny

Deixo a quem me lê a apreciação do fato inexplicável que estou para contar.

Em 1855, residente em Pavia, me dei ao estudo do desenho em uma escola privada daquela cidade; e, depois de alguns meses de estadia, havia estreitado relações com um certo Federico M., que era professor de patologia e clínica para o ensino universitário, e que morreu de apoplexia fulminante poucos meses depois que eu o conheci. Era um homem amantíssimo das ciências e da sua em particular – tinha virtude e dotes mentais não comuns – exceto que, como todos os anatomistas e clínicos em geral, era cético profunda e incuravelmente – era assim por convicção, nem eu poderia jamais induzi-lo às minhas crenças, conquanto me empenhasse nas discussões apaixonadas e calorosas que tínhamos todo dia a esse respeito. Não obstante – e me agrada entregar essa justiça a sua memória – ele se mostrasse sempre tolerante àquelas convicções que não eram as suas, e eu e todos que o conheceram conservamos a mais cara recordação dele. Poucos dias antes da sua morte, ele havia me aconselhado a assistir as suas aulas de anatomia, acrescentando que eu traria não poucos conhecimentos proveitosos para a minha arte do desenho: concordei, embora repugnado; e incentivado pela vaidade de parecer menos medroso do que era, lhe pedi alguns ossos humanos, que ele me deu e que eu coloquei sobre a lareira do meu quarto. Com a morte dele, eu havia cessado de frequentar o curso anatômico, e mais tarde também desisti do estudo do desenho. Apesar disso, guardei ainda por muitos anos aqueles ossos que o hábito de ver tornou quase indiferentes para mim, e não tem mais que poucos meses que, tomado por um súbito medo, resolvi por sepultá-los, não mantendo comigo mais que uma simples rótula de joelho. Esse ossinho esférico e liso que, pela sua forma e pela sua pequenez, eu havia destinado, desde o primeiro instante que o tive, a cumprir o ofício de um peso de papel, como algo que não me trazia nenhuma ideia assustadora. Encontrava-se já colocado há onze anos sobre a minha mesa, quando fui privado dele do modo inexplicável que estou para contar.

Havia conhecido em Milão, na primavera passada, um magnetizador muito popular entre os amantes de espiritismo, e fiz instâncias para ser admitido em uma das suas sessões espíritas. Recebi, pouco depois, um convite para uma sessão, e fui até lá agitado por prevenções tão tristes que, muitas vezes ao longo da estrada, estive prestes a renunciar. Apesar de tudo, a insistência do meu amor próprio me forçou a ir. Não estarei a discorrer aqui sobre as invocações surpreendentes às quais assisti: bastará dizer que eu fiquei tão maravilhado com as respostas que escutei de alguns espíritos, e a minha mente foi tão tocada por aqueles prodígios que, superado cada temor, concebi o desejo de chamar alguém que era de meu conhecimento, e perguntar-lhe eu mesmo algumas questões que havia já meditado e discutido na minha mente. Manifestada essa vontade, fui introduzido em um gabinete separado, onde fui deixado sozinho; e, uma vez que a impaciência e o desejo de invocar muitos espíritos ao mesmo tempo me deixavam hesitante sobre a escolha, e meu plano era interrogar o espírito invocado acerca do destino humano e acerca da espiritualidade da nossa natureza, me veio à memória o doutor Federico M., com o qual, vivente, eu havia tido vivas discussões sobre esses assuntos, e deliberei chamá-lo. Feita essa escolha, me sentei a uma mesa, dispus diante de mim um pequeno papel, mergulhei a caneta no tinteiro, me posicionei para escrever e, concentrando-me o quanto era possível naquele pensamento, e recolhida toda a minha potência de conação e dirigida a esse escopo, esperei que o espírito do doutor viesse.

Não esperei longamente. Depois de alguns minutos de demora, me dei conta, por sensações novas e inexplicáveis, de que eu não estava mais sozinho na sala. Senti, por assim dizer, a sua presença, e antes que eu conseguisse me resolver a formular uma pergunta, a minha mão agitada e convulsiva, movida como que por uma força estranha à minha vontade, escreveu, a minha revelia, estas palavras:

“Aqui estou. O senhor me chamou em um momento no qual invocações mais exigentes me impediam de vir, nem poderei demorar aqui agora, nem responder às interrogações que deliberou fazer-me. Apesar disso, lhe obedeci para lhe agradar, e porque preciso eu mesmo do senhor; e faz muito tempo que procurava o meio de me colocar em comunicação com o seu espírito. Durante a minha vida mortal, lhe dei alguns ossos que havia subtraído do gabinete anatômico de Pavia, e entre os quais havia uma rótula de joelho que pertenceu ao corpo de um ex-funcionário da Universidade, que se chamava Pietro Mariani, e de quem eu havia secionado arbitrariamente o cadáver. Faz agora onze anos que ele submete à tortura o meu espírito para reaver aquele ossinho inconcludente, nem cessa de repreender amargamente aquele meu ato, de ameaçar-me e insistir pela restituição da sua rótula. Eu lhe imploro, pela memória quem sabe não ingrata que terá conservado de mim, se o senhor a conserva ainda, a restitua a ele, dissolva esta minha dívida atormentadora. O farei ir até o senhor, neste momento, o espírito do Mariani. Responda.”

Aterrorizado por aquela revelação, respondi que conservava, de fato, aquela miserável rótula, e que estava feliz por podê-la restituir ao seu proprietário legítimo, que, não havendo outra via, mandasse até mim Mariani. Isso dito, ou melhor, pensado, senti minha pessoa aliviada, o meu braço mais livre, a minha mão não mais dormente como antes, e compreendi, em uma palavra, que o espírito do doutor havia partido.

Fiquei, então, mais um instante esperando – a minha mente estava num estado de exaltação impossível de se definir.

Depois de alguns minutos, senti novamente os mesmos fenômenos de antes, embora menos intensos; e a minha mão arrastada pela vontade do espírito, escreveu estas outras palavras:

“O espírito de Pietro Mariani, ex-funcionário da Universidade de Pavia, está diante do senhor, e reclama a rótula de seu joelho esquerdo que o senhor retém indevidamente há onze anos. Responda.”

Essa linguagem era mais concisa e mais enérgica do que aquela do doutor. Eu repliquei ao espírito: Estou mais que disposto a restituir a Pietro Mariani a rótula do seu joelho esquerdo, e lhe peço de fato que me perdoe pela detenção ilegal; desejo, porém, saber como poderei efetuar a restituição que me foi demandada.

Então a minha mão voltou a escrever:

“Pietro Mariani, ex-funcionário da Universidade de Pavia, virá pegar ele mesmo a sua rótula.”

            – Quando? – perguntei aterrorizado.

            E a mão registrou instantaneamente duas palavras apenas: “Esta noite”.

Aniquilado por aquela notícia, coberto de um suor cadavérico, eu me apressei a exclamar, mudando tom de voz de repente: “Por caridade… suplico-lhe… não se incomode… mandarei eu mesmo… haverá outros meios menos incômodos…”. Mas não havia terminado a frase quando me dei conta, pelas sensações já sentidas antes, que o espírito de Mariani se afastara, e que não havia mais meios de impedir a sua vinda.

 É impossível que eu possa colocar aqui, com palavras, a angústia das sensações que experimentei naquele momento. Estava nas garras de um pânico assustador. Saí daquela casa enquanto os relógios da cidade tocavam a meia-noite: as ruas estavam desertas, as luzes das janelas apagadas, as chamas das lanternas ofuscadas por um nevoeiro espesso e pesado – tudo me parecia mais sombrio que o normal. Caminhei um pedaço sem saber aonde me dirigir: um instinto mais potente do que a minha vontade me afastava da minha residência. Onde alcançar a coragem de ir para lá? Eu deveria receber, naquela noite, a visita de um espectro – era uma ideia de matar, era uma previsão terrível demais.

Quis então o acaso que, rondando, não sei mais por que rua, me encontrasse de frente a uma taverna sobre a qual se via escrito, a caracteres entalhados e iluminados por uma chama interna, “Vinhos nacionais”, e eu disse prontamente a mim mesmo: Entremos, é melhor assim, e não é um remédio ruim; procurarei no vinho aquela ousadia que não tenho  mais o poder de pedir para a minha razão. E enfiando-me em um canto de uma horrível sala subterrânea, pedi algumas garrafas de vinho que bebi com avidez, embora repugnasse por hábito o abuso daquele licor. Obtive o efeito que havia desejado. A cada copo bebido o meu temor se esvaía sensivelmente, os meus pensamentos se elucidavam, as minhas ideias pareciam reordenar-se, ainda que com uma desordem nova; e pouco a pouco reconquistei de tal modo a minha coragem, que ri comigo mesmo do meu terror e me levantei, e me dirigi resoluto para casa.

Já no quarto, um pouco cambaleante pelo demasiado vinho, acendi a lâmpada, me despi pela metade, me joguei precipitadamente na cama, fechei um olho e depois o outro e tentei dormir. Mas foi em vão. Sentia-me entorpecido, enrijecido, cataléptico, impossibilitado de me mover; as cobertas pesavam sobre mim e me envolviam e me revestiam como se fossem de metal e, durante aquele entorpecimento, comecei a perceber que fenômenos singulares se davam em torno a mim.

Do pavio da vela que achava ter apagado, que era legítima vela de sebo, subiam espirais de fumaça tão espessas e tão negras que, reunindo-se sob o teto, o escondiam, e assumiam a aparência de uma capa pesada de chumbo: a atmosfera do quarto se tornou de repente sufocante, estava impregnada de um odor similar àquele que exala da carne viva queimada, os meus ouvidos estavam ensurdecidos por um burburinho incessante do qual eu não sabia adivinhar a proveniência, e a rótula que eu via ali, entre os meus papéis, parecia se mover e girar sobre a superfície da mesa, como se estivesse acometida por convulsões estranhas e violentas.

Fiquei não sei quanto tempo naquele estado: eu não podia tirar a minha atenção daquela rótula. Os meus sentidos, as minhas faculdades, as minhas ideias, tudo estava concentrado naquela visão, tudo me atraia para ela; eu queria me levantar, descer da cama, sair, mas não era possível; e a minha aflição havia chegado a tal grau que quase não senti nenhum assombro, quando, dissipada de repente a fumaça emanada do pavio da vela, vi levantar-se a cortina da porta e aparecer o fantasma esperado.

Eu não batia pálpebra. Tendo avançado até a metade do quarto, inclinou-se cortesmente e me disse: “Eu sou Pietro Mariani, e venho para recuperar, como lhe prometi, a minha rótula”.

E já que o terror me deixava hesitante em responder-lhe, ele continuou com doçura: “Perdoe-me se tive que lhe perturbar no auge da noite… nessa hora… entendo que é uma hora incômoda… mas…”.

– Oh! É nada, é nada – eu interrompi tranquilizado por tanta cortesia, – eu lhe devo, aliás, agradecer pela sua visita… ficarei sempre honrado em recebê-lo em minha casa…

– Sou grato ao senhor – disse o espectro – mas desejo, de todo modo, justificar-me pela insistência com a qual reclamei a minha rótula, seja ao senhor, seja ao egrégio doutor de quem a recebeu: observe.

E assim dizendo, levantou uma tira do lençol branco, no qual estava envolto, e mostrando-me a tíbia da perna esquerda ligada ao fêmur, por falta da rótula, com uma fita negra passada duas ou três vezes na abertura da fíbula, deu alguns passos pelo quarto para me fazer entender que a ausência daquele osso lhe impedia de caminhar livremente.

– Valha-me Deus – eu disse então com entonação de homem mortificado, que o digno ex-funcionário da Universidade de Pavia permaneça manco por minha causa: eis a sua rótula, ali, sobre a mesa, pegue-a, e acomode-a como puder no seu joelho.

O espectro se inclinou pela segunda vez em ato de agradecimento, desatou a fita que unia o fêmur à tíbia, pousou-a sobre a mesa, pegou a rótula e começou a adaptá-la à perna.

– Que notícias o senhor traz do outro mundo? – eu perguntei então, vendo que a conversa definhava durante aquela sua ocupação.

Mas ele não respondeu a minha pergunta, e exclamou com aspecto entristecido: “Esta rótula está bastante deteriorada, o senhor não fez um bom uso”.

– Não creio – eu disse, – não será que os seus outros ossos estão mais rígidos?

Ele se manteve em silêncio, se inclinou pela terceira vez para me cumprimentar; e quando estava no limiar da porta, respondeu fechando-a atrás de si: “Escute se os meus outros ossos estão mais rígidos”.

E pronunciando essas palavras bateu no chão o pé com tamanha violência que as paredes tremeram todas; e àquele barulho tremi e… acordei.

Já desperto, entendi que era a zeladora que batia à porta e dizia: “Sou eu, se levante e venha abrir”.

– Meu Deus! – Exclamei então me esfregando os olhos com o dorso da mão. – Então foi um sonho, nada mais que um sonho! Que susto! O céu seja louvado… Mas que insensatez! Acreditar no espiritismo… em fantasmas…”. E enfiadas às pressas as calças, corri para abrir a porta, e já que o frio me aconselhava a voltar correndo sob as cobertas, me aproximei da mesa para colocar a carta sob o peso de papel…

Mas qual foi o meu terror quando vi desaparecida a rótula, e em seu lugar encontrei a fita negra que havia deixado Pietro Mariani!


[1] Conto fantástico do autor italiano da Scapigliatura, Igino Ugo Tarchetti (1839-1869).

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