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Conceição, Diva

Por Luciana Salles

“Minha filha, foi como se eu tivesse desabafado, naquele instante, 77 anos de angústia”. Esta frase eu ouvi de Dona Diva Guimarães, professora, negra, responsável pelo momento mais marcante da Festa Literária de Paraty de 2017, que teve como homenageado o escritor Lima Barreto, carioca de origem pobre e mestiço, que bem soube traduzir em sua obra o preconceito e as injustiças sociais daquele Brasil das primeiras décadas da República.

Encontrei Dona Diva por acaso, na rodoviária, já na hora de ir embora. Seu discurso emocionado, desnudando o racismo e o preconceito com os quais conviveu – e ainda convive – por toda vida, calou uma plateia inteira na Flip e, de alguma forma, deu o tom dessa 15ª edição do evento literário mais famoso do País.

Depois de alguns anos tendo o escritor Paulo Werneck como curador e contando, invariavelmente, com grandes estrelas em sua programação, dessa vez a batuta ficou com a jornalista cultural e historiadora Josélia Aguiar, que apostou na renovação. Entre os autores convidados, 23 mulheres e 22 homens. 30% deles eram negros. A maior parte era desconhecida do grande público. Mas as mudanças não foram percebidas somente na programação – também a plateia da Flip mudou.

Numa edição com recursos reduzidos em relação aos anos anteriores, a Igreja da Matriz foi, dessa vez, o palco dos debates, com capacidade de público de apenas 450 pessoas versus as 900 que antes cabiam na Tenda dos Autores. Havia, na Praça, outra estrutura montada para o público, com capacidade para 700 pessoas com acesso livre e gratuito. E, sim, foi bem mais democrática.

Os debates, em grande parte, foram marcados por gritos de “Fora, Temer” e os aplausos muitas vezes interrompiam a fala dos debatedores, especialmente quando o assunto eram as cotas raciais, a abolição que nunca existiu, e o momento político brasileiro.

Essa atmosfera “política” tomou conta do evento. Uma cervejaria feminista lançou uma nova marca que homenageia a autora Conceição Evaristo, escritora mineira que, aliás, teve muitos momentos de participação na Flip, para além da programação oficial, sempre ovacionada. Via-se um número muito maior de negros não apenas entre os convidados, mas sobretudo no público. Confesso certo alívio em perceber que a concentração de pessoas encoraja uma às outras e nos vi muito menos acovardados do que, de fato, imaginava que estivéssemos.

Numa das minhas andanças pela cidade, ávida por ver tudo o que estava acontecendo, assisti a uma cena interessante: um grupo numeroso de pessoas enfrentou a polícia local, em apoio a um vendedor ambulante que teve sua mercadoria apreendida. As pessoas encurralaram os policiais aos gritos de “devolve, devolve, devolve!”. E a polícia devolveu. Quando cheguei mais perto, encontrei o ativista político Pablo Capilé, que filmava tudo com um sorriso maroto.

Independente do momento histórico que vivemos e da gravidade da situação brasileira, andar pelas ruas da linda Paraty durante a sua Festa Literária é esbarrar, a cada esquina, com um poeta. Eu mesma esbarrei em José Eduardo Agualusa, que participou do evento na grade extra-oficial. Por onde quer que caminhe, há literatura. As muitas casas que ofereceram programação paralela eram, por vezes, mais convidativas do que os debates na Matriz, com destaque para a ação do Sesc na Flip, que foi maior do que o próprio evento, com direito à exposição de Brennand e show de Siba. Os cafés e restaurantes apresentam opções de cardápio inspiradas em autores ou em personagens famosos. A livraria oficial parecia uma loja de departamento em véspera de Natal – pessoas se acotovelando por livros (e também pelos souvenirs da Flip, que seguem caríssimos). Poetas declamam a esmo pelas ruas, saraus pipocam por todos os lados, pais lêem para seus filhos.

Em conversa com a Secretária de Cultura de Paraty, perguntei a ela qual é o principal legado da Flip para a cidade. Ao que ela me respondeu: “os livros”. Eu pensei em problematizar um pouco, pois um evento que recebe em massa uma população flutuante, muitas vezes depredatória, talvez devesse deixar mais do que “livros” como herança para o cidadão. E é provável que deixe, mas ela não me contou – mais uma vez tropeço na dificuldade de encontrar indicadores que dêem conta de mensurar o intangível, já que é inegável a transformação pessoal depois de vivenciar aqueles dias intensos. Mas, se há mensuração por meio dos livros, já temos aí um bom começo!

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