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em homenagem à memória de affonso ávila

por eleonora santa rosa*

affonso ávila falece 13 dias após meu aniversário, na rua cristina 1300, seu endereço de toda vida, em 28 de setembro de 2012. ano difícil este, de muitas perdas, separações, mudanças e dores. ano de mortes, de minha mãe, dele, minha referência intelectual, poética, humana, e de outros entes muito queridos.

estóico, silencioso, cortante em seu semblante de complexa geografia interior, sensível ser, delicadeza nos gestos, generosidade de escuta, caráter tinha para mais de uma encarnação, para várias, na verdade. homem ao termo se intitulou e escolheu para designar sua antologia, que viabilizei, quando secretária de cultura de minas gerais, em cooperação com a ufmg.

barrocão, angustiado, comprimido e deprimido por uma realidade áspera, repleta de inveja vizinha, que lhe custaria muitas perseguições e incompreensões, além de sérios prejuízos de ordem diversa.

construiu sua obra por si, à sombra de ninguém, em solo seco fértil, na modorra de minas também criadora, paradoxos até não acabar mais.

queria ter nascido em itaverava, sua pátria afetiva, mas deu-lhe o destino outro endereço, belo horizonte, no calafate, em casa recheada de mulheres e deveres.

nada lhe foi fácil, conquistou palmo a palmo, mano a mano, seu saber, sua escrita, sua poesia, sua interpretação genial do barroco mineiro.

abriu frestas, janelas, territórios, desvendou minas, a mineiridade, inovou, deu o salto – seu emblema: consciência crítica e atitude de vanguarda.

escreveu muito e extraordinariamente bem, de tudo um pouco, sobretudo, poesia e ensaios, até seus discursos eram antológicos, alguns deles encomendados por personalidades políticas de grande prestígio.

“já fiz muito burro pensar”, gostava de brincar.

fez da ‘pena’ seu sustento de vida, de si, de sua família, de seu clã. clã de poesia, como haroldo (de campos) já dizia.

nada de universidade, estudou sozinho, aprendeu com e na vida; rigoroso, leu muito, construiu seu próprio território e presença.

viu o que ninguém tinha visto, interpretou na linha das mentalidades, da história das mentalidades, quando poucos o faziam.

não se restringiu ao factual, ao fato em si, foi muito além! soube entender e interpretar com brilho e singularidade. usou de sua inteligência arguta, de sua cultura e informação, ousou e mostrou a que veio.

seus resíduos seiscentistas continuam referenciais quarenta anos depois de sua publicação, seu lúdico é um estupendo exercício de leitura do primado do visual na cultura barroca de minas.

seu rigor o transformou em fundamental pesquisador e ensaísta em busca do código de minas, seu livro de poesia referencial, ao lado da cantaria barroca, seu canto magistral de poesia e amor por uma cidade, onde escavou fundo e extraiu, em delicado e sensível garimpo intelectual de primeira, pedras preciosíssimas de ouro preto.

sábio, afável, teve lugar de destaque entre sua geração, uma das mais produtivas e essenciais na cultura brasileira. time avassalador: augusto e haroldo de campos, décio pignatari, ferreira gullar, benedito nunes (seu queridíssimo amigo), bóris schnaiderman,  murilo rubião, francisco iglésias, assim como sebastião uchoa leite, sebastião nunes e sérgio sant’anna. da geração mais antiga, suas relações eram com drummond, antonio candido, joão cabral, murilo mendes, dentre tantos outros.

sua cidadela na rua cristina, endereço mítico em belo horizonte, no antes tradicional bairro santo antônio, não mais existe, virou prédio que terá seu nome inscrito. lápide futura, única homenagem grafada em pedra e cimento, até esse momento, dedicada a um homem crucial para a preservação do patrimônio de minas gerais e da capital.

responsável pela lei que deu vida ao iepha (instituto de patrimônio histórico e artístico e minas gerais), foi um batalhador, um verdadeiro quixote na luta pelos bens culturais de seu estado. acompanhei de perto sua luta pela preservação do cine metrópole, episódio definidor de posições futuras nas trincheiras das batalhas contra a especulação mercenária imobiliária e de outras cepas. não afinou, não capitulou ao contrário de muitos, receosos de perderem seus empregos e sinecuras.

sofreu muito, foi alvo de perseguições pusilânimes: teve o tapete puxado, foi preterido, demitido, omitido, injustiçado, mas sobreviveu em meio aos seus amigos e familiares. era um conselheiro nato, cordial, delicado, atencioso e cioso.

considerava-se um homem escrito.

não era um homem fácil, suas mágoas, seus dissabores, seus rancores também eram guardados a seco.

era um homem vaidoso, jamais tolo, um dom juan meio torto, mineiramente atento às mulheres. gostava delas, se dava com elas, vibrava com elas.

gostava de política, de futebol, de uma boa cachaça agreste, especialmente a pé do morro, de itaverava, além de uma boa comida mineira.

filho de mãe longeva, que viveu mais de cem anos, imaginava que viveria muito, era hipocondríaco, seguia ordens médicas religiosamente, assim como todas as receitas de seu médico particular, amigo de longa data.

quase folclórica era a sua aversão por aviões, rodou o nordeste de carro, numa inesquecível e profícua viagem que fez com laís correa de araujo, sua mulher de toda vida, importante escritora, poeta e ensaísta, com quem teve cinco filhos, um deles, carlos, meu marido por muitos anos.

privei de sua intimidade por três décadas, aprendi muito com ele e passei por difíceis situações com ou por causa dele, vidas entremeadas e também sofridas em vários aspectos.

trabalhei para e com ele, fizemos muitas coisas juntos, editei e reeditei alguns de seus livros, produzi eventos e homenagens, organizei lançamentos, enfim, fiz o que estava ao meu alcance, compreendendo bem a dimensão do homem e da obra.

na reta final de sua vida, que acabou encurtada por conta de uma doença respiratória, mas já no início de uma fase delicada de saúde, conversamos e ele topou participar de um documentário que eu estava almejando há tempos.

disse-me ele: ‘ tem de começar agora’ e comecei, um ano antes de sua passagem.

gravei uma série de conversas, de imagens: em ouro preto, em bh, em sua cidadela.

ode em fim de vida, onde repassou sua trajetória.

belo material que espero, em breve, transformar em filme.

muitas saudades sinto, penso o que ele pensaria sobre vários fatos e pessoas. sinto muito que tenha partido cedo. sinto pela poesia que não há mais, pelas longas conversas.

ao mesmo tempo, sinto sua presença em minha casa, em minha estante a todo instante revisitada, onde posso aplacar as saudades dele, de seu pensamento, de sua criação, de sua poesia viva.

* eleonora santa rosa – jornalista, editora e empreendedora cultural, é considerada uma das maiores especialistas no país na área de projetos, planejamento, captação de recursos, e gestão cultural, com larga experiência na formatação, negociação e implementação de iniciativas culturais de envergadura e repercussão. ocupou vários cargos públicos ao longo de sua trajetória profissional, tendo sido secretária de estado de cultura. é fundadora  do santa rosa bureau cultural.

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