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O ensino da arquitetura ou a crise silenciosa

Por Ciro Pirondi

Editoria André Luiz Prado e Carlos Alberto Maciel

Ciro Pirondi, arquiteto, professor e diretor da Escola da Cidade, capitaneia o grupo responsável por uma das iniciativas mais relevantes do ensino de arquitetura de que se tem notícia no Brasil. Se há algo novo no panorama da arquitetura e do urbanismo, para além de alguma obra, profissional ou grupo atuante no cenário brasileiro, é esta Escola que traz os ventos mais promissores. Por sua insistência no reconhecimento dos valores de uma arquitetura brasileira notável que nos antecede, por sua crença inabalável em um ensino humanista e pela generosidade de seu projeto pedagógico, que, mais do que formar profissionais, procura a eles revelar mundos possíveis, a Escola merece a nossa atenção.

O artigo que apresentamos a seguir foi escrito na ocasião da abertura dos trabalhos da Escola no ano de 2017 e publicado no informativo da mesma Escola e no portal de arquitetura Archdaily. É uma síntese, por fragmentos, da trajetória de uma ideia potente e de uma experiência singular.

 

  1. Motivos

Não me seduz a visão na qual, para apontar possíveis alternativas para um problema, necessariamente ressaltemos defeitos, erros ou crises insolúveis.

Aproximo-me mais daqueles que, com consciência das carências da sociedade brasileira, trabalham produzindo alternativas, ora com acerto, ora com menos acerto. Talvez seja uma visão otimista de um desinformado.

A experiência da Escola da Cidade tem origem no processo de redemocratização do Brasil, nos finais da década de 70. O grupo que liderou o processo constitutivo da Escola formou-se naquele período. Uma geração ativa junto às associações de arquitetos, sindicatos, Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB– muito próxima dos mestres de gerações anteriores. Estes vivos então, atuantes, aos quais devemos muito de nossa educação e formação.

Um grupo que soube reconhecer seus antepassados e de alguma forma contribuir para preservar seus legados, suas memórias, após suas ausências. Colaboramos na constituição de fundações; organismos e institutos capazes de arquivar e resgatar os trabalhos desses arquitetos – Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, João Filgueiras Lima , Paulo Mendes da Rocha, e outros.

Com eles aprendemos a necessidade de estarmos junto ao ensino, às entidades de classe do nosso ofício, sem nunca abdicar do fazer cotidiano de nossos escritórios, que mantemos até hoje de forma intensa e contínua, harmonizando com a dedicação à Escola.

Assim iniciamos a aproximação do ensino de Arquitetura em várias faculdades, públicas e privadas. Destas experiências ao longo de alguns anos sentimos a necessidade de nos aventurarmos no desenho de um caminho próprio para nossos anseios pedagógicos.

A Escola da Cidade é assim, o resultado de um processo iniciado na década de 80, por um grupo de arquitetos, com um ideal tecido no afeto, o qual ainda hoje é o fio invisível de Ariadne a nos manter unidos.

  1. Silêncio

A crise do ensino de arquitetura ou de suas estratégias para aprendizagem de nosso ofício está inserida na crise mundial da educação, esta sim a maior crise da contemporaneidade.

Preocupados com a crise econômica mundial iniciada em 2008, governos não estão atentos a esta que, no longo prazo, provavelmente será muito mais prejudicial para o futuro dos governos democráticos.

As mudanças radicais que a sociedade passou no século XX e, principalmente, nos últimos 80 anos, somente são comparáveis às do século XV e XVI. Assistimos a um segundo renascimento na história da humanidade.

Essas mudanças não têm sido bem pensadas, obcecados pelo produto nacional bruto –PNB–os países e seus sistemas de educação estão descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis.

Tanto no ensino fundamental e médio, como no ensino superior, as humanidades e as artes estão sendo eliminadas em quase todos os países do mundo. Esta tendência não está saindo apenas dos currículos, mas das mentes e dos corações dos pais e dos filhos.

A competição toma conta do mundo. A eficiência é a palavra de ordem. Somos uma engrenagem constituída para produzir sem reflexão, sem questionamento. Esquecemo-nos do ensinamento indiano:– A nuvem bebe água salgada e chove água doce.

Estamos com o botão da reflexão crítica desligado.

Este estado de cegueira está nos levando a desconfiar do futuro.No entanto o mundo só melhorou. A média de longevidade ampliou-se muito; as tecnologias diminuíram o trabalho braçal, os meios de comunicação encurtaram a distância entre os homens; pensamos com muita seriedade na possibilidade de construirmos cidades e civilizações em outros planetas.

Habitar o Universo.

Contraditoriamente, no entanto, não diminuímos a distancia entre ricos e pobres; marginalizamos as mulheres; discriminamos minorias;o poder está nas mãos de incapazes…

  1. Solidão

O ensino de arquitetura sofre a aflição de uma solidão nas Universidades. Fazem lembrar o sublime Garcia Marques buscando sua Macondo, ou Homero e a eterna travessia de Odisseu – o Ulisses romano- em sua jornada pelos mares revoltos. Vezes em lugares mágicos. Vezes em situações terríveis, a mostrar-nos que na travessia o mais importante não é aonde vamos chegar ao final, mas a maneira como seguimos por ela.

Se optarmos por seguir como máquinas de ensino, talvez a máquina do mundo, como no belo poema de Drummond, nos destrua.

O papel da Universidade avulta, na busca do conhecimento, e as escolas de arquitetura vem sendo ameaçadas exatamente pelo prestígio crescente do cientificismo e pela importância que este vem ganhando entre os que atualmente dirigem o ensino superior.

A Escola de Arquitetura não pode viver sem espontaneidade, ou corremos o risco de assistir ao triunfo de uma ação sem pensamento, legitimada pela burocracia e o carreirismo que assolam as universidades públicas e privadas.

A falta de ideal, a recusa da coragem,converteram-se em rotina em nossas aulas.

A alma de uma escola é composta pelo binômio professor/aluno. Nosso objeto de investigação não é a arquitetura em si, mas a arquitetura submetida à nossa interrogação.

Os intelectuais, dizia Sartre, casam-se com o seu tempo e não devem traí-lo. Diante das incertezas e contradições do tempo contemporâneo, estamos esquecendo deste ensinamento nas salas de arquitetura, traindo nosso tempo.

Pierre Levy, em seu texto- Inteligência Coletiva -afirma:

– Hoje, o homo sapiens enfrenta a rápida modificação de seu meio,do qual ele é o agente coletivo, involuntário.

O filósofo sugere a via da inteligência coletiva. Tenho a intuição ser esse o caminho capaz de produzir novos sistemas e signos, novas formas de organização social e regulação que nos permitiriam pensar em conjunto.

  1. Coletivo

A Escola da Cidade é uma experiência coletiva. Dirigida por um Conselho Pedagógico constituído de professores de todas as disciplinas e estudantes de todos os anos.Múltipla, com uma condição jurídica privada, mas de finalidade publica, sem fins lucrativos, como deveria ser toda a ação educacional por excelência.

Nosso projeto pedagógico visa formar um cidadão consciente, com visão crítica capaz de influir nas mudanças da sociedade. Pretendemos capacitá-lo no seu ofício, neste cosmo em mutação. Orientá-lo a ver na arquitetura, cada vez mais,diferentemente do século XX, hoje, no século XXI, sua condição: coletiva, social e multidisciplinar.

Fazê-lo ver a cidade como lugar onde o mundo e o homem mais se movem. Vê-la como local das diferenças, por isso mesmo é a cidade o lugar da educação.

Devemos resistir às tentativas de reduzir o ensino a uma ferramenta, e esforçarmo-nos para conectar novamente a educação dos arquitetos as humanidades. Para capacitá-los a serem cidadãos de seu país e do mundo.

A arquitetura como um saber de fronteiras, nunca uma especialização, o que seria seu suicídio.

O Estúdio Vertical, disciplina que compõe a grade curricular da Escola da Cidade, constitui-se como experiência de saber de fronteiras, múltiplo e coletivo. Equipes compostas por alunos do 2º ao 6º ano, com um tema único para um exercício semestral, favorecendo a interdisciplinaridade e a relação dos estudantes de diferentes anos e professores de diversas disciplinas.

Necessário reduzir a quantidade de disciplinas em nossos currículos e, ao invés de desperdiçarmos energia em muitas frentes disciplinares, discutindo ao infinito a montagem de currículos pedagógicos, focarmos na melhor formação dos professores, este sim o nó de nossas preocupações.

Não há ótimo currículo que capacite ou legitime um mau professor.

Os três cursos de pós-graduação da Escola: ‘Geografia, Cidade e Arquitetura’, ‘Habitação e Cidade’, ‘Arquitetura, Educação e Sociedade’ visa uma formação dos professores. Este último é oferecido sem custo, e seus enfoques são pedagogias, alternativas e estratégias para o ensino da arquitetura.

Educar os sentidos, como propõem os pedagogos, este é desafio de nossas escolas.

Esta ousada proposição já havia sido feita por Marx, nos manuscritos de 1844:

̶O cultivo dos cinco sentidos é o trabalho de toda história passada.

Paremos um pouco aqui.

  1. Itinerância

Em seu maravilhoso livro, ‘A CIDADE DAS PALAVRAS – As histórias que contamos para saber quem somos’, Alberto Manguel sugere:

̶Que ampulheta é essa em que estamos sempre trocando de lugar e cuja forma e natureza estão igualmente em transformação contínua? Por quais meios nos imaginamos no lugar que dizemos ser nosso lar?E quem somo nós: habitantes, moradores ou passantes?

A Escola da Cidade mantém, nestes 15 anos, a Escola Itinerante, tese defendida desde o nosso princípio, por entendermos ser móvel o futuro do ensino da arquitetura. Com professores alocados em seus centros de estudos, em diferentes localidades. Professores itinerantes.

A natureza e objeto de nossos estudos, a cidade, a paisagem, os artefatos arquitetônicos, são melhores apreendidos in loco, com a análise de arquitetos do lugar. O que isso significa? Tratam-se de viagens de prazer, de turismo? Não. Mexer-se, viajar, é atravessar universos de problemas, mundos vividos, paisagem dos sentidos.

Uma ‘Escola de Lugar Nenhum’, parafraseando a famosa música do Beatles, para um planeta cada vez mais nômade.

Há 65 anos, Mies van der Rohe, diretor do departamento de Arquitetura da Universidade de Chicago, escreveu uma carta para 40 escolas de arquitetura de toda América, perguntando sobre a duração e qualidade dos estudos. Le Corbusier na mesma época com uma atitude claramente contrário ao ensinamento acadêmico da arquitetura, dizia serem as escolas de arquitetura o cemitério da imaginação e da criatividade. A conferência de Bologna, em 1999, continuou buscando resposta a essas duas atitudes totalmente controversas dos mestres.

A ‘Escola de Lugar Nenhum’ como síntese da proposta dos dois mestres do século XX. A Arquitetura como esse saber de fronteiras, um rio e suas margens, alimentou o projeto pedagógico de nossa Escola e mantém o Seminário de Cultura e Realidade Contemporânea semanal. Uma conversa com pensadores das mais diversas áreas do conhecimento: Ciência, Artes, Futebol, Carnaval, Economia e outras.Uma disciplina semanal, com carga horária, avaliação, coordenada por um professor responsável. Um respiro no meio da semana, na tentativa de nos – salvar da lógica de pôr todo o significado da vida na carreira. Quando isso acontece, você está fadado à superficialidade e ao vazio (Camille Paglia).

 

  1. Registro

Caminho para o final do texto. Lidei com cada aspecto por fragmentos, por partes soltas. Se escrevesse de forma contínua, sempre esgotando assunto, ele certamente seria mais completo, mais abrangente. No entanto, gosto de pensar ser possível captar o todo por meio das partes, de alguns detalhes.

Entendo ser muito difícil reproduzir outra Escola da Cidade. O momento, as circunstâncias nas quais ela se desenhou, já passaram. No entanto, acredito ser ela um modelo possível, um caminho alternativo entre o ensino público, orientado e mantido pelo Estado, onde um aluno custa em média U$1.500 mês. Ou o ensino de associações religiosas hierarquizadas, subordinadas às suas benesses econômicas, tradição esta herdada desde o colonialismo; ou privado, com empresários, nacionais e internacionais, cada vez mais sedentos de transformar o ensino em mercadoria, as escolas em espaços de shopping center’s, com praças de alimentação, lojas semelhantes à casas de espetáculo, repletas de eventos com catracas e pagamentos prévios.

Alguns ainda nos vêem como experiência passageira, fadada ao fim, dada a ausência de pesquisa acadêmica; a produção acadêmica, o “rigor” acadêmico… tudo acaba um dia.

Desconhecem, no entanto, que mantemos desde o início das novas atividades, com financiamento próprio, um Núcleo ou Conselho Científico, com iniciação científica e pesquisas. Além da Editora da Cidade, com a Gráfica Flavio Motta, no subsolo da Escola, que realiza publicações de trabalhos internos da Associação ou de fora dela: livros, apostilas, Informativos, cadernos de viagens, entre outros.

Para completar a tríade ensino/pesquisa/extensão, por não sermos uma universidade, constituímos um Conselho Técnico onde nossos alunos trabalham em projetos reais a partir de convênios com fundações, ONGs, institutos, autarquias, empresas e governos.

Para encerrar, passo a palavra para o mestre Lúcio Costa – nosso Brunelleschi:

– Acho que o curso de Arquitetura necessita de uma transformação radical. Não só o curso em si, mas os programas das respectivas cadeiras e, principalmente, a orientação geral do ensino. A atual é absolutamente falha … (O Globo, 1930).

-A melhor crítica a uma poesia é outra  – John Cage . Esta é a orientação na Escola da Cidade, onde há 20 anos tentamos dar vida ao desafio proposto por Lúcio Costa.

Muitas tentativas e acertos assimilamos do passado e do presente, realizadas em outras Instituições de Ensino, fora e dentro do Brasil.

Talvez tenhamos chegado a trinta – quarenta por cento do imaginado. Muito ainda há a fazer e caminhar . Pretendemos continuar com a abertura, em 2016, da Escola de Humanidades João Filgueiras Lima – Fábrica, Instituição de Ensino Médio da Escola da Cidade que haverá de consolidar um pouco mais desta utopia.

 

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