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Quem faz acontecer – O perfil do gestor cultural

Por Alberto Camisassa
Editoria Solanda Steckelberg

Trabalhei durante quase 30 anos na área financeira de grandes empresas e alguns tantos anos, cumulativamente, como dirigente de fundo de pensão.

A diferença básica entre as duas atividades era apenas referente ao lado do balcão: nas grandes empresas a vida consistia, fundamentalmente, em administrar dívidas para garantir o funcionamento delas… No fundo de pensão, aplicar recursos para garantir a aposentadoria daqueles que contribuíam durante os anos de trabalho.

Ainda que a diferença possa parecer enorme, afinal um dos lados era pobre enquanto o outro rico, as exigências básicas das duas atividades não se mostravam muito diferentes: ambiente bastante regulado, necessidade de planejamento, capacidade de enfrentar imprevistos, administração de conflitos, avaliação de riscos e recursos escassos.

Em 2008 assumi a responsabilidade de comandar a obra de restauro e, posteriormente, a gestão do Cine Theatro Brasil Vallourec. Uma das primeiras descobertas que fiz foi de que os aprendizados do passado me seriam mais úteis do que eu imaginava, ainda que a atividade fosse bastante diferente e completamente nova para mim.

Na primeira etapa – obra de restauro – a importância do planejamento foi vital. A obra era cara, longa e a necessidade de captação de recursos, uma constante, além da logística muito complexa, afinal tudo acontecia no centro de Belo Horizonte, no palco de manifestações diversas da população, a Praça 7. Estava claro que o trabalho que tínhamos pela frente não seria para uma só pessoa e por esta razão foi montada uma equipe tecnicamente capaz e engajada nesta tarefa.

Sem um bom planejamento – tanto físico quanto financeiro – elaborado, acompanhado e revisto constantemente, além de uma grande disciplina em sua execução, as dificuldades teriam sido bem maiores e possuo sérias dúvidas se teríamos conseguido sucesso em um desafio tão grande.

Ainda na etapa da obra, os argumentos que possuíamos para convencer potenciais financiadores precisavam ser embasados por dados e por previsões consistentes e críveis. Necessitávamos mostrar a qualidade do que estava sendo feito para que nossos parceiros acreditassem que entregaríamos um produto de qualidade – um espaço cultural restaurado – em prazos e custos previsíveis.

Na segunda etapa – operação do Cine Theatro Brasil Vallourec – os desafios foram novos, mas as habilidades exigidas para enfrentá-los continuavam as mesmas – ambiente bastante regulado, necessidade de planejamento, capacidade de enfrentar imprevistos, administração de conflitos, avaliação de riscos e recursos escassos.

Constatei que havia mudado de “setor” – de gestor de obra de restauro para gestor de espaço cultural – sem mudar de endereço nem de emprego, quando em 2013 inauguramos o mais novo centro cultural de Belo Horizonte do seu porte e gênero. Ele trazia 10 pavimentos, 1 teatro com 1000 assentos e outro com 200, 1 espaço multiuso que atendia a até 500 convidados, 2 andares de galerias, além de foyer, café e bomboniere.

No entanto, a grande novidade foi conviver com artistas e produtores e tentar conciliar seus interesses e desejos com as necessidades do pessoal da gestão dos espaços culturais. O motivo de frequentes e longas discussões residia, basicamente, em planejamentos e em orçamentos.

Artistas e produtores, em sua grande maioria, enxergavam a constante exigência da gestão por planejamentos e orçamentos como amarras às manifestações culturais e à criatividade, enquanto o pessoal da gestão, frequentemente, julgava-os como despreocupados demais com estes aspectos.

Adicionalmente, tanto o Cine Theatro Brasil quanto produtores e artistas estavam sempre às voltas com as necessidades de captação de recursos incentivados para a manutenção do espaço e para a efetiva produção dos espetáculos.

A necessidade de captação de recursos exige um planejamento eficiente e um registro financeiro e contábil das atividades bastante precisos para permitir que as prestações de contas sejam feitas como devem ser.

Sem que tudo funcione com alguma harmonia, todos perdem: o público abandonará o espaço cultural, caso este não ofereça aquilo que se espera dele – eventos e produções de qualidade – e os artistas terão sua atividade restrita a um número menor de espaços culturais.

Mesmo que as atividades de um centro cultural sejam extremamente dependentes de criatividade e de inspiração, é fundamental possuir especialistas em diversas áreas – finanças, planejamento, marketing, TI, contabilidade, RH, equipe técnica do teatro – visando tanto a atração de grandes espetáculos, quanto conforto aos que se apresentam no teatro e àqueles que o frequentam em busca de cultura e de lazer.

A palavra mágica é GESTÃO!

É preciso fazer com que tudo funcione em harmonia, permitindo que o protagonismo seja do artista. Se o público comparecer ao teatro e não perceber o trabalho da equipe de palco, da turma de escritório, do pessoal da limpeza e da bilheteria e, ao final do espetáculo sair satisfeito, a gestão cumpriu seu papel!

 

 

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