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Três poemas de Crow, de Ted Hughes

Tradução de Sérgio Alcides

Crow Hears Fate Knock on the Door
Crow looked at the world, mountainously heaped.
He looked at the heavens, littering away
Beyond every limit.
He looked in front of his feet at the little stream
Chugging on like an auxiliary motor
Fastened to this infinite engine.
He imagined the whole engineering
Of its assembly, repairs and maintenance –
And felt helpless.
He plucked grass-heads and gazed into them
Waiting for first instructions.
He studied a stone from the stream.
He found a dead mole and slowly he took it apart
Then stared at the gobbets, feeling helpless.
He walked, he walked
Letting the translucent starry spaces
Blow in his ear cluelessly.
Yet the prophecy inside him, like a grimace,
Was i will measure it all and own it all
and i will be inside it
as inside my own laughter
and not staring out at it through walls
of my eye’s cold quarantine
from a buried cell of bloody blackness –
This prophecy was inside him, like a steel spring
Slowly rending the vital fibres.
Corvo ouve o destino batendo à porta
Corvo estava olhando o mundo, empilhado aos montes.
Ele estava olhando o céu, que se espalhava afora
Além de qualquer limite.
Ele estava olhando a seus pés o riacho
Estalando tal qual um motor auxiliar
Atrelado a esse infinito engenho.
Ele estava imaginando toda a engenharia
De montagem, os reparos, a manutenção –
Até ficar aturdido.
Arrancou tufos de mato a fim de observá-los
À espera de instruções iniciais.
Estudou uma pedra do riacho.
Achou uma toupeira morta, que dissecou devagar,
Depois ficou vendo os nacos, aturdido.
Foi andando, caminhando
De modo que os espaços estrelados translucentes
Tocassem-lhe os ouvidos sem nenhuma pista.
Mas dentro dele a profecia, fazendo uma careta,
Dizia tudo isso hei de medir e possuir
e vou ficar por dentro disso tudo
como estou por dentro do meu riso
e não olhando de fora desde os muros
da quarentena gélida dos olhos
enterrado na treva de uma cela de sangue –
Essa profecia estava dentro dele, como uma mola de aço
Rasgando aos poucos as fibras vitais.

 

A Disaster
There came news of a word.
Crow saw it killing men. He ate well.
He saw it bulldozing
Whole cities to rubble. Again he ate well.
He saw its excreta poisoning seas.
He became watchful.
He saw its breath burning whole lands
To dusty char.
He flew clear and peered.
The word oozed its way, all mouth,
Earless, eyeless.
He saw it sucking the cities
Like the nipples of a sow
Drinking out all the people
Till there were none left,
All digested inside the word.
Ravenous, the word tried its great lips
On the earth’s bulge, like a giant lamprey –
There it started to suck.
But its effort weakened.
It could digest nothing but people.
So there it shrank, wrinkling weaker,
Puddling
Like a collapsing mushroom.
Finally, a drying salty lake.
Its era was over.
All that remained of it a brittle desert
Dazzling with the bones of earth’s people
Where Crow walked and mused.
Um desastre
Correu a notícia de uma palavra.
Corvo a viu matando gente. Comeu foi bem.
Ele a viu reduzindo a escombros
Cidades inteiras. Outra vez, comeu foi bem.
Ele viu os excrementos dela envenenando os mares.
Ele aí se pôs vigilante.
Ele viu o hálito dela incendiando regiões inteiras
Que viraram fuligem.
Ele bateu asas e espiou de longe.
A palavra foi escorrendo, toda boca,
Olho não tinha, nem ouvido.
Ele a viu chupando as cidades
Como quem chupa as tetas de uma porca
Bebendo toda a gente
Até não sobrar ninguém,
Tudo digerido na palavra adentro.
Faminta, a palavra encostou os grandes beiços
Na pança da terra, feito uma lampréia gigante –
E começou a chupar.
Mas seu esforço minguou.
Ela não digeria nada, só gente.
E foi encolhendo, engelhando-se mais fraca,
Chafurdando
Como um cogumelo chocho.
Enfim, um lago salobre que seca.
Sua era acabara.
Só restava dela um deserto roto
Ofuscante com os ossos da gente da terra
Por onde Corvo andava e divagava.

 

Crow’s Fall
When Crow was white he decided the sun was too white.
He decided it glared much too whitely.
He decided to attack it and defeat it.
He got his strength flush and in full glitter.
He clawed and fluffed his rage up.
He aimed his beak direct at the sun’s centre.
He laughed himself to the centre of himself
And attacked.
At his battle cry trees grew suddenly old,
Shadows flattened.
But the sun brightened –
It brightened, and Crow returned charred black.
He opened his mouth but what came out was charred black.
‘Up there,’ he managed,
‘Where white is black and black is white, I won.’
A queda de Corvo
Corvo cismou quando era branco que o sol era branco demais.
Cismou que ele reluzia branco demais.
Cismou que ia atacá-lo e derrotá-lo.
Acendeu sua força até o máximo fulgor.
Pegou firme na raiva, inflando-a.
Apontou o bico bem para o centro do sol.
Partiu de rir até cair no centro de si mesmo
E atacou.
Ao seu grito de guerra as árvores de súbito
Envelheceram e as sombras achataram.
Mas o sol brilhava –
Brilhava, e Corvo ao retornar era um tição.
Abriu a boca mas o que saiu de dentro era tudo tição.
“Lá em cima”, resmungou,
“Onde o branco é preto e o preto é branco, venci eu”.

 

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