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A adaptação de orquestras sinfônicas à pandemia

Editoria Marcelo Ramos

Se houve um setor que sofreu mudanças drásticas em função da pandemia, com certeza foi o da música erudita e seus grupamentos sinfônicos mundo afora. Acostumadas a salas de concerto e teatros lotados, com mais de duas mil pessoas, em alguns casos, orquestras sinfônicas tiveram que se reinventar para continuar oferecendo música a seus expectadores e, em casos mais graves, para continuarem existindo.

Algumas orquestras, mais organizadas e mais atentas ao mundo atual, já vinham investindo em serviços online, gratuitos e pagos, para ampliar a base de ouvintes e gerar alguma renda extra para manter suas atividades. O melhor exemplo vem da Filarmônica de Berlim, que tem seu Digital Hall com assinaturas anuais difundidas no mundo todo, com muitos assinantes brasileiros, inclusive. Nesse ambiente virtual, são postados, além de concertos sinfônicos, entrevistas, documentários, cenas de bastidores e making of de produções de DVDs, dentre outros formatos.

Já existe, há pelo menos dez anos, uma discussão internacional em fóruns especializados sobre a relevância de orquestras sinfônicas no mundo atual, reagindo a uma crítica sobre a estagnação do modelo vigente desde o século 19, onde não havia TV, rádio e muito menos Spotify e Youtube. De fato, as orquestras e seus membros de casaca e sapatos escovados de verniz não realizaram nenhuma grande mudança nessa forma de arte nos últimos 150 anos, mas existem novidades pontuais em diversas cidades do mundo em busca de novos formatos e novas formas de interação para que esses grupos se tornem relevantes na sociedade como um todo.

A pandemia forçou uma reação rápida ao cenário de distanciamento social, e praticamente tudo foi cancelado no território erudito, temporadas inteiras, óperas, assinaturas devolvidas, ingressos perdidos, enfim, um verdadeiro caos administrativo. Nos Estados Unidos, houve demissão de músicos em massa, orquestras fecharam e, em alguns casos, não há planos de retorno. Comparando com o Brasil, este golpe nos EUA e na Europa foi muito maior, dado o fato de a dependência de bilheteria, nessas orquestras, ser muito mais significativa do que na maioria das orquestras brasileiras, que são mantidas pelo poder público e absorvem esse impacto mantendo os salários dos artistas, ainda que apresentações presenciais não estejam ocorrendo.

Para manter seus públicos engajados, orquestras se reinventaram com novas modalidades de apresentações: concertos sem público ou a popular live; academias online, com aulas gratuitas para instrumentistas; rodas de conversa com convidados, maestros, produtores e mesmo com músicos integrantes das orquestras; projetos online de música de câmara, utilizando grupos menores das orquestras como trios, quartetos e quintetos; em Nova Iorque foi instituído a Band Wagon, um tour de pequenos conjuntos em uma van aberta pela cidade; e o mais utilizado, a popularização do mosaico – vídeo editado com músicos tocando em casa, geralmente, em quadradinhos na tela, que invadiram as redes sociais em números impressionantes.

Se houve algum ponto positivo nesse cenário de caos artístico foi a antecipação do investimento em formatos online e a busca de soluções que integrem outras formas de arte como o design gráfico, a pintura e o cinema. Ainda há um longo caminho a ser percorrido por orquestras, principalmente na questão dos concertos especiais para jovens, que no cenário atual não conseguem prender a atenção por mais que 5 minutos, e esse é o desafio a ser vencido – como manter essa juventude engajada em uma arte que está ainda estagnada em um modelo tão antigo?

Se existe uma certeza é de que não há receitas prontas. O debate gira em torno da promoção de um novo repertório, da incorporação de elementos da música popular às músicas tradicionais, da renovação do figurino dos artistas, da duração dos concertos – que devem ser mais curtos, da inclusão social a fim de representar todos os segmentos da sociedade no palco, e sobretudo, do bom senso dos diretores artísticos, que devem ficar atentos a todas essas questões e reagir sem medo de errar.

Marcelo Ramos é maestro e professor na Escola de Música da UFMG

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