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A mira feroz de Adriane Garcia

Editoria Ana Elisa Ribeiro

A poeta que, desta vez, ocupa esta coluna é mineira de Belo Horizonte, onde reside e escreve. Formada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-graduada em Arte-Educação, Adriane Garcia mistura todas as suas competências, ainda somadas aos conhecimentos de teatro, para alcançar uma performance poética que se espalha entre a voz e a letra. Foi assim da primeira vez que a vi pessoalmente: lendo poesia. De entre as pessoas, num círculo de leitores e leitoras, Adriane leu poemas com uma força dramática iluminada. E faz isso sempre que pode, em vídeoleituras que derrama pelas redes sociais, onde também publica parte de sua produção poética, inclusive a inédita.

São sete os livros da autora: Fábulas para adulto perder o sono foi a obra de estreia, e já não passou sem ser notado: arrebatou o Prêmio Paraná de Literatura 2013, um dos mais respeitáveis do país. O volume foi lançado pela Biblioteca do Paraná e teve reedição em 2017, pela editora Confraria do Vento. Em 2014, Adriane Garcia lançou O nome do mundo, poemário pela editora Armazém da Cultura, de Fortaleza. No ano seguinte, Só, com peixes aparece pela casa carioca Confraria do Vento. Em 2016 foi a vez de participar da coleção Leve um Livro, apoiada três vezes seguidas pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte. O volume da poeta foi intitulado Embrulhado para viagem e trazia poemas inéditos. Na toada de lançar um livro por ano, Garrafas ao mar veio pela editora paulista Penalux, em 2018 (de onde tiramos o poema que aqui está), e foi seguido de um projeto especial, Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois, lançado pela coleção BH A Cidade de Cada Um, único volume em versos entre os mais de trinta livros que contam histórias da capital mineira (Conceito Editorial, 2019). Em 2020, com pandemia e tudo, Adriane lança Eva-proto-poeta, pela editora nova-limense Caos & Letras. Os poemas deste livro recente já haviam recebido menção honrosa no primeiro prêmio da Editora da Universidade Federal do Paraná, em 2018.

Além de escrever num ritmo acelerado, mantendo o tônus de uma poesia forte e crítica, longe da linguagem-pela-linguagem, Adriane Garcia tem especial apreço pela poesia falada, participando de eventos e saraus. Não é difícil encontrar seus poemas esparsos em muitas revistas e jornais eletrônicos, onde ela testa os limites e os deslimites do verso e do que ele pode dizer/fazer sentipensar. Parte significativa de sua produção nasce de projetos que ela constrói cuidadosamente, propondo-se um tema ou um mote, como é o caso, por exemplo, de Só, com peixes ou de Eva-proto-poeta. Adriane é poeta de uma escrita consciente, de pouco improviso e aleatoriedade. Tem mira; e uma ferocidade que reside principalmente em sua crítica social e nos temas delicados que escolhe abordar. Está longe daquela ideia estereotipada e desqualificadora de uma “poesia feminina” relacionada à prenda, à delicadeza, ao véu e à superficialidade. Ler Adriane Garcia não é para relaxar. É o tipo de poesia que, ao tempo em que é acessível, faz pensar e reconceber a humanidade.

Poema sem maracatu

Minha tetravó não era nenhuma rainha na África
Minha tataravó veio num cavalo negro de morte que
andava sobre as águas
Minha bisavó ficou livre depois dos sessenta e chorou
de tristeza até poder ficar
Sinhazinha deu beliscões roxos nela e ela sorriu
desdentadíssima
Minha avó, muito antes, já fora tirada roubando leite
de suas tetas
Fugiu cedo e foi tornada catadora de papel
Minha avó abandonada abandonou minha mãe
E eu escrevi este poema.

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