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O ano que devorou o mundo

Por Tullio Dias
Editoria Cinema de Buteco

Em 2018 foi lançado um longa-metragem francês chamado A Noite Devorou o Mundo (La Nuit a dévoré le monde, no original). Primeiro trabalho dirigido por Dominique Rocher, até então um cineasta com apenas três curtas no currículo, o terror fala de um tema considerado muito batido (e até mesmo odiado) para boa parte do público: zumbis. No entanto, considerando o mundo em que vivemos, eu sugiro fortemente que você vença um possível preconceito e me acompanhe nessa estreia do Cinema de Buteco na edição 61 do Letras.

A narrativa foge (um pouco) do estilo sangrento, gosmento e violento que se espera encontrar assistindo aos tradicionais “filmes de zumbis”. Ainda que tenha sim seus momentos para fazer valer o DNA, Rocher tem uma ação interessante ao conduzir sua obra por um caminho fora do que faz parte do gênero.

O protagonista, que é introduzido como uma pessoa fechada e introspectiva, entra em cena entrando numa festa e se isolando num quarto até dormir. Quando acorda, descobre que a cidade de Paris foi tomada por zumbis durante a noite. Assim. Do nada. Sem explicações. Algo mais surpreendente que encontrar corrupção no atual governo.

A Noite Devorou o Mundo já era, lá em 2018, um excelente exemplar de filme de terror com metáforas inteligentes para solidão e depressão. No atual contexto, com a COVID-19 e nosso isolamento social que nos afasta do convívio normal há mais de sete meses, o filme francês ganha uma profundidade que o diretor não poderia imaginar.
Durante dias o protagonista vive sozinho em completo isolamento. Sua única opção de lazer é tocar bateria para incomodar os mortos, que se aglomeram em frente ao apartamento. Aos poucos a sua sanidade começa a balançar e causar verdadeiras alucinações, numa clara referência ao fato que nós, humanos, não somos capazes de viver bem sozinhos e impedidos de nos relacionar.

O que o filme faz é servir como uma curiosa metáfora para nossas próprias ações e como o mundo reage diante algo inédito e completamente desconhecido. Qual será o admirável mundo novo que se desenha para nosso futuro como sociedade? Assim como um apocalipse zumbi, será que podemos considerar o “velho-normal” como a única forma de vida possível?

O cinema muitas vezes age como um reflexo da nossa sociedade. Ainda sobre zumbis, em 1978, George Romero lançou a crítica definitiva contra o consumismo exagerado em O Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead). A Noite Devorou o Mundo tenta não ir pelo mesmo caminho de ser somente mais uma crítica social, mas um trabalho sensível que retrata com violência toda a intensidade da depressão e solidão na cabeça de uma pessoa. Quantos de nós não vivem exatamente essa mesma sensação de que o mundo como conhecíamos deixou de existir? Não ter controle da nossa própria segurança é desconfortável ao extremo e assusta muito, pois pelo menos na ficção temos os zumbis para identificar como ameaça. Na vida real, qualquer um pode ser uma ameaça.

Após sete meses de isolamento social no Brasil e com o anúncio recente que os cinemas poderão reabrir no final do mês de outubro, estamos diante um cenário realmente apocalíptico. Não apenas pela ausência de uma vacina para prevenir e impedir mais mortes, mas também pelos impactos da pandemia na indústria do cinema.

A China, pela primeira vez, superou Hollywood como maior mercado do mundo. As grandes redes de exibição nos EUA anunciam o fechamento das suas salas e acusam os distribuidores de terem esquecido seus principais parceiros. Até Christopher Nolan, visto pela indústria como um possível salvador do mercado, viu seu último trabalho fracassar miseravelmente nas bilheterias e como consequência os grandes estúdios tomaram a decisão de adiar todos seus principais lançamentos para o ano de 2021. Isso sem falar no impacto da pandemia entre os exibidores brasileiros, a maioria concentrados em shopping centers…

A nossa esperança, como amantes da sétima arte, é aguardar tudo isso chegar num ponto de controle e equilíbrio, e acompanhar o que diretores, roteiristas e produtores podem nos dizer sobre essa pandemia. Certamente, assim como o 11 de setembro impactou toda a forma de pensar cinema nos EUA, a tendência é que os próximos anos sejam recheados de produções capazes de retratar toda a angústia de viver esse momento. No entanto, bem provável que encontrem dificuldades para superar o que A Noite Devorou o Mundo conseguiu sem nem imaginar o que aconteceria dois anos depois do seu lançamento.

No ar desde 2008, o Cinema de Buteco é um portal formado por amigos que têm em comum o amor pelo cinema, para registrar suas opiniões e reflexões: www.cinemadebuteco.com.br

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