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Quem tem medo da criança pensante?

Editoria Maria Thereza da Silva Pinel

Desde o seu surgimento enquanto gênero, no século XVIII, a Literatura Infantil enfrenta um grande conflito entre literatura e educação. Aliado aos objetivos escolares, que pretendiam condicionar e ensinar a cultura e os costumes burgueses às crianças, o livro infantil passou a ter um caráter utilitário-pedagógico bastante consolidado. Esse aspecto foi reforçado ao longo dos anos também pelo mercado editorial, que se adaptou para fazer livros mais lúdicos, que atraíssem mais o público infantil, com imagens, cores, sons e outros recursos gráficos apreciados pelas crianças, porém com o discurso repleto de autoritarismo, moralismo e controle.

Para Regina Zilberman, pesquisadora especialista em literatura infanto-juvenil, esse aspecto é “o sintoma da voz adulta no interior do livro”, uma vez que o adulto geralmente escreve para ensinar algo que ele considera importante, limitando o universo infantil às verdades e à realidade que o adulto almeja controlar e condicionar. A necessidade de mediação adulto-criança — de modo que os adultos, além de produzirem os livros (escritores, ilustradores e editores), também escolhem quais livros serão apresentados ou não à criança, seja na escola, em bibliotecas ou em casa — causa certo desnível no relacionamento emissor-receptor.

Além disso, há uma menor legitimação da literatura infanto-juvenil por parte da academia literária, que parece ter relegado o estudo dessas obras para os pedagogos. Com isso, alimenta-se o ciclo que indica a Literatura Infantil como ferramenta pedagógica, fazendo com que o mercado consumidor acredite que ela se resuma a isso: um aparato lúdico que tem o objetivo de controlar e condicionar o comportamento e os valores das crianças.

Ana Maria Machado, professora e escritora premiada de literatura infantil, deixa clara a sua opinião sobre o assunto: “Confunde-se estética com ética, literatura com educação e acaba não se fazendo nem uma coisa nem outra. E já é mais do que tempo de desfazer de dentro esse equívoco […] porque literatura e educação são incompatíveis… Caminham em sentidos exatamente opostos.”.

É preciso reconhecer que o que se passa é uma visão adultocêntrica do que seria a criança e a infância ideal, muitas vezes pautada na experiência pessoal desses adultos envolvidos na mediação entre a criança e a literatura. Percebemos, nos livros infantis, crianças-personagens inverossímeis, com conflitos que remetem às preocupações adultas e não às inquietações do universo da criança. Isso, quando há conflito, já que é sintomática a produção de livros infantis que servem basicamente para auxiliar na alfabetização, apresentando um conteúdo praticamente vazio.

Ilan Brenman, pesquisador e escritor de literatura infantil, toca num ponto interessante ao relacionar a correria e a falta de tempo do mundo capitalista ocidental à demanda por livros infantis pedagógicos e moralistas, supondo que a escola e os pais, responsáveis pela educação das crianças, passaram a delegar essa função aos livros infantis. Estes podem ensinar sobre ecologia, sobre respeito às diferenças, sobre como trabalhar as emoções, dentre vários outros temas que regram o comportamento e o pensamento infantil. No fim das contas, essa prática afasta a criança da leitura não só por ser maçante e rasa, mas também por ser pautada num mundo irreal, já que o exemplo ideal mostrado nos livros não é visto no dia a dia.

Com isso, chegamos ao ponto que Ana Maria Machado propõe recorrentemente como solução para alavancar a melhoria na qualidade dos livros infantis: o importante não é se perguntar o que a criança deve ler, mas sim como ela lê. Em vez da censura, dos linchamentos e das proibições de certos livros infantis tidos como impróprios, é preciso que a criança aprenda a fazer uma leitura crítica. Para que isso aconteça, os livros devem suscitar perguntas, questionamentos e reflexões, em vez de oferecerem respostas padronizadas e reforçarem valores e condutas moralmente aceitos, de acordo com a ideologia vigente de uma época. A autora ainda discorre a respeito da importância da variedade de leitura e de vozes discursivas para que se alcance o objetivo proposto.

A obra de arte, literatura inclusa, tende a ser subversiva e a contestar os padrões impostos de funcionamento do mundo. É a partir dessas provocações que nós, leitores, pensamos, refletimos, discutimos, e vamos formando nosso arcabouço de argumentos e, por fim, nossa opinião. Se a máxima de que a leitura e a literatura ensinam é verdadeira, o equívoco é pensar que a resposta já se encontra no livro — fenômeno claramente percebido na literatura infantil.

É importante ressaltar que o incômodo com esses aspectos da Literatura Infantil não é exclusivo da crítica brasileira. O professor e teórico britânico Peter Hunt denuncia não só desvalorização da Literatura Infantil no meio acadêmico literário, como aponta o controle moral exercido pelo mercado editorial, que pretende atender à demanda dos pais e educadores por uma literatura que ensine condutas corretas e passe bons exemplos.

Dentre os diversos pensadores, críticos e teóricos da literatura infantil, é unânime a sugestão de que os adultos envolvidos nesse tipo de produção tenham contato e vivência com crianças, para que possam conhecer e entender o universo infantil e suas demandas. Com o passar do tempo os anseios lúdicos e temáticos foram ouvidos, já que isso seria necessário para atingir o público-alvo na lógica capitalista do mercado editorial, no entanto o conteúdo apresentado ainda se insere no universo adulto, que limita o imaginário infantil naquilo que ele julga importante ou interessante de ser ensinado.

Cecília Meireles defendia que a Literatura Infantil deveria ser uma classificação a posteriori, sendo a literatura lida com utilidade e prazer pela criança, e não necessariamente o que se escreve para elas. Já Ana Maria Machado acredita que a Literatura Infantil é uma classificação que amplia o substantivo em vez de restringi-lo, de modo que é uma literatura que pode ser lida também por crianças, e não apenas por elas. Resumindo a ideia, chegamos à conclusão de que a boa literatura infantil é aquela que agrada tanto adultos quanto crianças.

O respeito pela criança, tão defendido por adultos que trabalham com esse público, deve partir do pressuposto de que ela é um ser pensante, capaz de desenvolver um pensamento crítico, descartando de uma vez por todas a proposição de John Locke de que ela é uma folha em branco a ser preenchida, bem como deixar de lado também a ideia de Rousseau, de que a criança é um ser imaculado que precisa ser protegido das mazelas do mundo que a cerca. É preciso enxergar a demanda infantil no seu presente enquanto criança, e não como um futuro adulto.

Fanny Abramovich, pedagoga, crítica literária e escritora, faz um trabalho bastante intrigante ao discutir não só a literatura infantil, mas também o teatro, a música, a televisão e os brinquedos, complementando o estudo com entrevistas feitas a diversas crianças. A partir das respostas, a autora comprova que elas sabem “ler criticamente, ter suas opiniões claras, buscando o prazer […] e percebendo o que chateia, o que aborrece”, e, mais do que isso, descobre o quanto elas estão insatisfeitas com o aparato cultural produzido para elas.

É hora de ouvirmos as crianças, de entendermos seus desejos, seus medos e seus conflitos, para que possamos mostrar caminhos libertários, possibilitando a expansão do pensamento e do imaginário por meio do encontro infantil com as infinitas possibilidades que a ficção é capaz de oferecer.

Maria Thereza faz mestrado em Literatura Brasileira (UFMG), com pesquisa voltada para a Literatura Infantil.

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