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Um mastodonte na poesia

Por Ana Elisa Ribeiro
Retomar o jornal Letras condiz com a necessidade de informação de qualidade sobre a cultura produzida – e fervilhante – em Belo Horizonte e em Minas Gerais. Com muita alegria, aceitei prontamente o convite para voltar a mostrar a poesia local e o diálogo com outras produções poéticas, neste periódico, com o qual colaborei desde sua fase anterior. Não poderia haver espaço mais adequado.
E por que uma página dedicada especialmente à poesia? Por que ela emerge de todos os cantos, atravessa a cidade e o planeta, circula por todos os suportes – da parede ao celular de última geração. Ela pulsa junto com a cidade, como sempre. Beagá vive um momento de especial efervescência de pequenas editoras, da produção poética, com dicções variadas e muitos, incontáveis, lançamentos de livros.
Esse cenário é parte de um outro maior: o Brasil. Editoras independentes, poetas de toda voz, livros e mais livros, lançamentos a perder de vista, tudo ao mesmo tempo agora, como sentenciava Arnaldo Antunes, anos atrás. Não à toa, há alguns anos venho trabalhando na coleção Leve um Livro, que distribui microantologias de poesia contemporânea brasileira em diversos pontos de Belo Horizonte – inclusive o Café com Letras, é claro. Ao final de 2017, serão 73 poetas publicados e republicados, apresentados e reapresentados ao público leitor. E faltarão muitos, centenas deles.
O Leve um Livro é um projeto executado por um pequeno grupo de pessoas. A curadoria é feita por mim e pelo poeta mineiro Bruno Brum, que apresento hoje neste espaço. Belo-horizontino nascido em 1981, residente em São Paulo há alguns anos, Brum está longe de ser um poeta de gabinete. Além de escrever e publicar, faz curadorias, é designer gráfico e editor. Em parceria com o poeta e músico Makely Ka, editou, em BH, entre 2006 e 2009, a Revista de Autofagia. Entre suas publicações autorais estão os livros Mínima ideia (2004), Cada (2007), Mastodontes na sala de espera (2011, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2010, categoria Poesia), Marmelada (2015, em parceria comigo, na coleção Leve um Livro) e 20 sucessos (2016, em parceria com o poeta pernambucano Fabiano Calixto).
Com uma produção persistente e consistente, Brum não poderia faltar em antologias. São elas: Interferências (Santa Maria-RS: Vento Norte Cartonero, 2015) e Equilibrando tazas de champán (tradução para o portunhol selvagem por Douglas Diegues, em Assunción, Paraguay: Muamba Cartonera, 2016).
É difícil selecionar alguns poemas da obra de um autor admirado. Quantos? Quais? Por que estes, e não outros? Mas vamos com o coração aberto? Que tal um poema de cada livro? Ou de alguns? De Cada, publicado em 2007, destaco este:
Persombra
sempre que reparo
minha sombra
me ultrapassa
se amarrota
no entanto
se a assopro
Impressionante em sua imagem, intrigante em sua ideia, inteligente na composição. O mínimo de palavras para o máximo de sentido, como diriam alguns teóricos das poéticas. Um Bruno minimalista, mas que cede lugar a um caudaloso narrador, em outros poemas. Do livro Mastodontes na sala de espera, de 2011, premiado pelo governo do estado de Minas Gerais, aponto:
Medida
Vivo o que se pode chamar de uma vida média.
Na escola, sempre me esforcei para alcançar a média.
No trabalho, sempre fui um funcionário médio.
Meu desempenho nos esportes nunca excedeu a média.
Fui um marido médio, um amante médio, um filho médio.
Sou um sujeito de mentalidade mediana.
Com alguma sorte, me mantive na média.
Tenho um fôlego de alcance médio.
Fico constrangido com a possibilidade de ultrapassar a média.
Nunca esperei das pessoas nada além da média.
Penso o que pensa o brasileiro médio.
Antipatizo com aqueles que pairam acima da média.
Meus medos e receios sempre estiveram dentro da média.
Meus sonhos de consumo nunca fugiram à média.
Meus desejos e fantasias estão todos na média.
Os meus ossos, se bem organizados,
caberiam numa caixa de tamanho médio.
Menos minimalismo, mais ironia. Mais dureza nas palavras, mais crítica. Mais sarcasmo, num lirismo meio debochado. Soa como algum sorriso do próprio Bruno. Essa é a “pegada” de muitos poemas desse autor. No livro mais recente, 20 sucessos, publicado em dobradinha com Calixto, Brum continua disparando farpas, desde o título. Vejamos:
Equilibrando taças de champanhe
Os colegas me parabenizam pela conquista.
Os vizinhos me parabenizam pela família.
Os médicos me parabenizam pela saúde.
Os clientes me parabenizam pela eficácia.
Os amigos me parabenizam pela lealdade.
Os bêbados me parabenizam pela escuta.
Os jovens me parabenizam pela graça.
Os estranhos me parabenizam pela gentileza.
Os vendedores me parabenizam pela escolha.
Os loucos me parabenizam pela cumplicidade.
Os políticos me parabenizam pela confiança.
Os policiais me parabenizam pela conduta.
Os sábios me parabenizam pela prudência.
Todos me parabenizam com vontade.
Muito obrigado.
A autoironia e as críticas aos meandros do mundo literário são integrantes da poética de Bruno Brum. Em alguma semana de outubro, ele publicou no Facebook uma antologia de “poemas essenciais para a literatura brasileira”. À primeira vista, uma lista de autores nacionais, no entanto, a galhofa se dá já na primeira página do livro digital bem cuidado e diagramado: tratava-se de uma coletânea de poemas do próprio Bruno. Risadas, na certa. Vale conhecer!

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