You are here

O paradoxo das certezas provisórias

Por Ione de Medeiros
Editoria Elisa Belém

         O texto da diretora de teatro Ione de Medeiros, à frente do Grupo Oficcina Multimédia, abre a sessão de Artes Cênicas do ano de 2018, do LETRAS.
O GOM comemorou 40 anos de existência no ano passado e Ione completa agora 35 anos de direção.
Para aqueles que não conhecem, o GOM desenvolveu uma linguagem própria em suas encenações por meio do movimento, do ritmo, da visualidade e sonoridade. A rara continuidade no tempo do trabalho de um grupo teatral, indica um forte pensamento de base, raiz de seu desenvolvimento.
Entre 11 e 28 de maio, o GOM estreia a sua montagem da peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, no CCBB, em Belo Horizonte. Certamente será um momento de comemoração e de maturidade do grupo.
Vida longa ao GOM!

Macquinária 21 – Crédito Eric Bezerra

 

“As realidades mais óbvias, onipresentes e importantes são muitas vezes as mais difíceis de compreender e de discutir”.
(David Foster Wallace)

Certezas provisórias foi um termo que descobri para falar sobre os processos criativos que vivi nos últimos 35 anos como diretora do Grupo Oficcina Multimédia de Belo Horizonte. O que seria isto? Um paradoxo. Pois em um processo de criação, começamos pelo desconhecido, que compreende levantar um tema, colher dados, lidar com o caos e estruturá-lo, culminando na montagem de um espetáculo. Quando finalizamos uma obra e a divulgamos como um  produto artístico, temos que estar  certos de que era aquilo que queríamos dizer. Colocamos um ponto final no processo.  Dependemos desta certeza, caso contrário não conseguiríamos nos expor para o público e apresentar aquele resultado. Mas ao mesmo tempo que temos certezas quando fechamos um processo, lidamos também com as incertezas, sabendo que ainda não chegamos no ideal, que sempre falta algo e que algo vai mudar. A angustia é saber onde, quando e como isto vai acontecer, e de novo  nos vemos diante do desconhecido. Daí surgiu o termo certezas provisórias, uma certeza continuamente sujeita a dúvidas, gerando  mudanças que às vezes vêem do acaso. Isto aconteceu quando montamos Alicinações, em 1991. A montagem era concebida como uma partitura polifônica de sons, imagens e movimentos. No espetáculo, três personagens, se deslocavam segundo as rígidas regras de um jogo absurdo, numa alusão ao nonsense de Alice no país das Maravilhas, de Lewis Carroll, que junto com Ulisses de James Joyce inspirou o titulo Alicinações. Estes três personagens vestiam roupas e guarda-chuvas da mesma cor. Os guarda-chuvas eram novos, perfeitos, bonitos, impecáveis! Ficou estabelecido que seriam usados sempre abertos, compondo esteticamente com o figurino, e, as ações dos atores estariam sujeitas a uma estrutura coreográfica previamente estabelecida. Neste momento, estava certa de que esta era a solução mais adequada, mas eu me sentia presa neste formato. Sabia que alguma coisa iria mudar, mas não sabia o que, quando e como. Até que, em uma das apresentações um dos guarda-chuvas se fechou em cena , por acaso, e foi reaberto em seguida pela atriz. Pude então perceber como foi bonito este movimento inesperado, que surgiu de forma aleatória, como uma possibilidade simples, que eu não tinha vislumbrado. Mas em Alicinações, não consegui ainda me libertar daquela rigidez. Isto só foi acontecer com Bom dia Missislifi, em 1993, quando os guarda-chuvas voltaram para a cena, desta vez velhos, estragados, desconstruídos. Em um determinado momento a personagem se desfazia deles jogando-os para trás, enquanto um ator os recolhia no ar, e às vezes deixava que caíssem no chão. Esta liberdade no uso do material cênico foi sendo conquistada no processo de cada montagem, e se instalou como uma particularidade própria da linguagem  do GOM. Ao longo dos 35 anos de pesquisa continuada, fomos estendendo nosso olhar para outros objetos do cotidiano e ampliando as  suas possibilidades de utilização. Se em Biografia (1983), primeiro espetáculo do GOM, inspirado em um poema de Ferreira Gullar, usamos cinco cadeiras e alguns adereços, em Zaac e Zenoel (1998) criado para espaço alternativo, ficou evidente a  evolução e maturidade desta busca. O cenário feito de objetos diversificados, incluía, além de cadeiras, carrinhos de supermercado e de gás, mangueiras hidráulicas, trilhos de ferro, latões, mesas, caixotes, escadas, cordas, carretel e toda uma sorte de quinquilharias encontradas nas ruas ou em ferros-velhos. Na cena estes objetos eram usados como fonte sonora e se relacionavam em uma grande engrenagem cênica onde tudo se encaixava. Re-significados, estes objetos faziam alusão a um laboratório de ficção cientifica onde os dois cientistas, Zaac e Zenoel, pesquisavam as fórmulas da juventude eterna e da imortalidade. O processo de pesquisa prosseguiu nos espetáculos seguintes. Em Macquinária 21 (2016) inspirada em Macbeth, de Shakespeare, os objetos foram estruturados como esculturas  plástico/sonoras, integradas na cena teatral. Pensadas como máquinas de guerra, faziam alusão às lutas de Macbeth pelo poder, e eram desconstruídas e reconstruídas em cena, diante do espectador. Paralelamente homenageávamos a inventividade de Leonardo da Vinci (1452-1519) e seus desenhos de máquinas bélicas. Foi a instabilidade gerada pelas  certezas provisórias que possibilitou a constante renovação na linguagem multimeios do GOM. Incorporadas nos processos de montagens estas certezas provisórias geraram transformações, quebraram rótulos e contribuíram para que  respeitássemos os ciclos criativos e aprendêssemos a lidar com a espera. Tomamos consciência do “sagrado benefício da dúvida” e de que  as idéias surgem do inconsciente, ao acaso, e escapam de nosso controle. O paradoxo das certezas provisórias se repete nos mistérios da vida e da morte. Somos mortais mas apegamo-nos a bens, a propriedades, a pessoas, a religiões, como se fôssemos imortais. No entanto, se  pudéssemos nos conscientizar de nossa impermanência, poderíamos optar por uma  vida mais plena e mais livre, sabendo o quanto  ela é provisória e efêmera.
 
Ione de Medeiros participou da criação do Grupo Oficcina Multimédia em 1977 e, desde 1983 atua como diretora deste grupo.
 

Deixe uma resposta

Top