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Entre línguas e linguagens, a camaleônica Prisca Agustoni

Editoria Ana Elisa Ribeiro

Há poucos dias saiu a lista dos livros semifinalistas do Prêmio Oceanos, antigo Portugal Telecom, um dos mais importantes que há em português. É também um dos que mais deixam os escritores em polvorosa nas redes sociais. Trata-se de uma premiação conferida a obras já publicadas, de editoras e autores de países de língua portuguesa, e recebe, por isso, centenas e centenas de inscrições. Desta vez, a manchete de um dos maiores jornais do país mencionava algumas “surpresas”: autores cuja língua materna não é o português estavam entre os semifinalistas. Entre eles, figurava Prisca Agustoni (Lugano, Suíça, 1975).

Surpresa fiquei eu com a manchete apenas parcialmente verdadeira. Afinal, sei que Prisca é suíça, sim, de nascimento, mas é radicada no Brasil há muitos anos e atua como professora na Universidade Federal de Juiz de Fora. A poliglossia de Prisca Agustoni (estão entre suas línguas o italiano e o francês, além do português) favoreceu que ela se tornasse uma das mais relevantes tradutoras em atividade no Brasil, além de sua produção autoral de alta qualidade como poeta, também em nosso idioma.

Prisca Agustoni é autora de livros de poesia publicados em Genebra e no Brasil. Por aqui, é autora de Hora zero (2016), A morsa (2010), A recusa (2009), Dias imigrantes (2004) e Inventário de vozes (2001), entre outros em italiano e espanhol, além de dois livros de contos, de alto lirismo. De A morsa, publicado pela brava Mazza Edições, de Belo Horizonte, posso pinçar pérolas como estas, espécie de poema em fragmentos:

 

 

ANTES DA PARTIDA

O movimento invisível
foi de minha mãe.

O segundo
e definitivo
foi o meu,
a cumprir seu passo cortado,

uma síncope
ou vingança
há muito fiada em silêncio

*

Por anos fui
maçã degolada na mesa,
bagaço quase maduro.

Avessa à filiação,
encarno a ordem dos camaleões

embora as raízes
me firam como farpas.

*

Não foi involuntária
a escolha de um refúgio.
Eu acreditava no silêncio,
um mundo às avessas.

Quando se juntaram
para sabotar-me a voz,
dei-lhes um escudo,
essa escrita na sombra,
sem filiação
e sem rasura

É comum que a poesia de Prisca seja considerada introspectiva, psicológica, interior, apontando-se também alguns temas recorrentes, como a situação de pessoa que migra e as margens e os mergulhos estabelecidos entre as línguas de que se apropria. Vejamos o poema a seguir, também retirado do livro A morsa:

BABEL

Procuro a consonância
entre minhas orlas

de um lado
o Léman

do outro
o espanhol o etíope o italiano
exilados em mim
com as feridas.

Camaleônica, a poeta se divide entre orlas de várias línguas e linguagens, tecendo uma poesia – e prosa – de grande lirismo. Raízes que ferem como farpas, algo que muitos vivemos sem a potência de escrever; e a escrita oferecida como escudo a outras tantas feridas e ao silêncio. Vale procurar os links e os vídeos de Prisca Agustoni internet adentro, especialmente suas recentes leituras na Festa Literária de Paraty (Flip).

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