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Nova Velha Escola – de Design – na Praça da Liberdade

Editoria Cláudio Santos Rodrigues
e Sérgio Antônio Silva

Permitam-nos anotar, em nosso título, a alusão à reescrita do conto Chapeuzinho Vermelho, por João Guimarães Rosa. A versão de Rosa intitula-se Fita verde no cabelo (Nova velha estória) e diz do encontro de “uma meninazinha, a que por enquanto”, com a avó à beira da morte. Trata-se, como no clássico de Charles Perrault, de um conto de formação, no caso, daquela menina de fita verde inventada no cabelo que, ao estar diante do “frio, triste e tão repentino corpo” da avó, nunca mais será a mesma. Fita-Verde saberá que a vida – assim como a infância uma hora se torna puberdade, assim como a fita se perde pelo caminho – um dia acaba.

Entretanto, interessa-nos destacar o subtítulo do conto: “Nova velha estória”. Aqui, notamos o gosto de Guimarães Rosa pelo paradoxo, figura de linguagem que o autor explorou, por exemplo, nas “anedotas de abstração” contidas no livro Tutaméia: terceiras estórias: “Se procuro, estou achando. Se acho, ainda estou procurando?” Assim, como pode uma estória – ou uma escola – ser nova, sendo, ao mesmo tempo, velha? São essas pequenas “impertinências” semânticas que fazem da língua um jogo. Cabe ao poeta (como Rosa, mesmo em prosa) brincar com a língua, inventar sua língua de brincar para que a palavra possa mais, diante do caos do mundo e dos mistérios da vida.

Outro aspecto a se considerar, no sintagma, é a sutil mudança de sentido causada pela anteposição dos adjetivos, sobretudo o “velha”, em relação ao substantivo: “velha escola” é bem diferente de “escola velha”, em termos de significação. De modo que se diz de uma velha estória / escola, assim como se fala da “velha guarda do samba”, aquela que sabe e dá o tom do desfile, ou do “velho amigo do peito”, guardado a sete chaves.

Feito o preâmbulo, devemos esclarecer que a nova velha escola a que nos referimos é a Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais, ED – UEMG, em uma situação particular, que é a sua recente mudança para a nova sede, para um prédio que faz parte do patrimônio municipal e estadual e que foi todo restaurado para recebê-la. Trata-se do edifício modernista que, na Rua Gonçalves Dias, em plena Praça da Liberdade, do lado oposto ao Palácio, por quase 50 anos abrigou a sede do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais – IPSEMG e que foi projetado pelo arquiteto Raphael Hardy Filho, com cálculo estrutural a cargo do engenheiro civil Sylvio Barbosa. As obras foram realizadas entre 1960 e 1964 e o prédio foi inaugurado pelo então Governador Magalhães Pinto, em 1965. Seu projeto arquitetônico alinha-se àquele do modernismo de Minas Gerais, que começa de forma pioneira em Cataguases, na Zona da Mata, por volta de 1940, e que, em Belo Horizonte, poucos anos depois, conhece o esplendor.

Especificamente na Praça da Liberdade, são quatro os edifícios modernistas a conviver harmoniosamente, como bem cabe a Minas, com o passado dos prédios ecléticos das antigas secretarias de governo, com a pujança do próprio Palácio da Liberdade e com o futuro incerto e intrigante do pós-moderno Rainha da Sucata (alcunha do Edifício Tancredo Neves, projetado por Éolo Maia e Sylvio de Podestá). Os edifícios modernistas da Praça são esse onde agora é a Escola de Design (Raphael Hardy Filho), o Edifício Mape (Sylvio de Vasconcellos), o Edifício Niemeyer e a sede da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (ambos de Oscar Niemeyer).

Com isso, a Escola de Design agora faz parte de um circuito cultural intenso, com museus e outros aparelhos culturais que se formam a partir da ocupação dos prédios públicos da Praça e do seu entorno, conforme descrito no site do Circuito Liberdade:

Em 2010, após a inauguração da Cidade Administrativa e transferência oficial do governo para a região norte de Belo Horizonte, o Circuito Cultural Praça da Liberdade, hoje Circuito Liberdade, se concretiza como um projeto do Governo do Estado. A proposta era reunir, em um mesmo local, espaços culturais diversos, a partir de parcerias com instituições públicas e privadas. A vocação cultural da região, que já abrigava o Arquivo Público Mineiro, a Biblioteca Pública, o Museu Mineiro e o Rainha da Sucata, foi então reforçada com a criação de novos museus e espaços de cultura e formação, que passaram a ocupar os edifícios das antigas secretarias de governo. Em 2015, o Circuito passa a ser gerido pelo Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG) e, desde então, vem buscando uma maior articulação com o espaço urbano e os diversos grupos artísticos e populares, consolidando-se como um braço forte da política pública de cultura do governo estadual. O projeto passou por um processo de ampliação do seu perímetro de atuação, considerando os eixos da Avenida João Pinheiro e da Rua da Bahia, o que foi traduzido em seu novo nome: Circuito Liberdade. Dentro desta perspectiva, novos equipamentos passaram a fazer parte do complexo, com a composição de uma agenda integrada aos outros espaços já existentes. Hoje o Circuito Liberdade é composto por 15 instituições, dentre museus, centros de cultura e de formação, que mapeiam diferentes aspectos do universo cultural e artístico.[http://circuitoliberdade.mg.gov.br/pt-br/circuito-liberdade-br/historia]

A mudança da Escola de Design se dá sob a égide do conceito de “escola aberta” (a nossa nova escola), do qual derivam algumas ações, como: novos projetos pedagógicos dos cursos de graduação (Design de Ambientes, Design de Produto, Design Gráfico – bacharelado – e Licenciatura em Artes Visuais), planejados para uma formação mais transversal e autônoma do aluno (algo como um desenho não arbóreo, rizomático); bacharelado em Design de Moda; novos cursos de pós-graduação lato sensu; pós-graduação stricto sensu com mestrado e doutorado; cursos de extensão ampliados; Espaço Cultural ED – UEMG (um caso à parte, um espaço de fato já integrado ao Circuito Liberdade); biblioteca especializada aberta ao público externo. Além disso, a ED é uma unidade da UEMG que, por sua vez, é uma instituição pública de Ensino Superior pioneira na aplicação de ações afirmativas, no sentido da ampliação do acesso ao ensino superior gratuito, com um sistema de reserva de vagas para população carente, afrodescendente, indígena, egressa de escola pública e portadora de necessidades especiais, entre outras ações.

Já a velha escola diz respeito à tradição (algo também caro aos mineiros) no ensino de design e na formação de professores-educadores de artes. No caso, a ED é herdeira daquela que, em 1955, ainda como “Escola de Artes Plásticas” (subordinada à já existente Escola de Música da U.M.A. – Universidade Mineira de Arte – Fundação Educacional), inaugurou o ensino acadêmico de design em Minas Gerais e que figura entre as primeiras instituições do Brasil, nessa área. Diz-se até que pode ser a primeira, a depender do documento para o qual se olha (e do olhar, obviamente). Depois dessa fase inaugural, em 1964 (não por coincidência, período em que o prédio da Praça da Liberdade estava sendo construído) veio a consolidação com a FUMA – primeiramente, Fundação Mineira de Artes e depois, Fundação Mineira de Artes Aleijadinho. Em 1989, a Fundação passa a fazer parte da recém-criada Universidade do Estado de Minas Gerais, como Escola de Design. Nesse processo histórico, vale ressaltar que a UEMG já esteve na Praça da Liberdade, pois a Reitoria ocupou por anos um prédio que foi demolido e que deu lugar ao que veio a ser o Espaço do Conhecimento da UFMG, que foi o primeiro equipamento cultural do Circuito Cultural Praça da Liberdade.

Pioneira no ensino de design, primeira no Estado e segunda no País, a Escola de Design foi uma das mais importantes iniciativas que marcaram o design mineiro. Desde sua criação em 1964 e, principalmente, a sua incorporação à Universidade do Estado de Minas Gerais em 1990, vem prestando serviços à sociedade na área de Educação e Cultura, por meio de cursos de formação superior e projetos culturais. Além das atividades de ensino, a Escola de Design desenvolve atividades de pesquisa e extensão através de seus Centros, Laboratórios e Núcleos de Estudos responsáveis pelo alinhamento do ensino com as demandas sociais e produtivas do Estado. Esse processo de retroalimentação permanente tem contribuído para o desenvolvimento de uma cultura de inserção do design na concepção e diferenciação de produtos e serviços dentro e fora do Estado de Minas Gerais. Seus egressos têm ocupado postos de destaque no cenário nacional e vencido concursos nas várias vertentes do design, tanto no país quanto no exterior. (LAB_ED NA PRAÇA)

A velha escola tem a ver, portanto, com um modo próprio de saber fazer design e, por consequência, um saber transmitido de um modo bastante peculiar, com as oficinas e os centros onde a pesquisa e a extensão se aliam ao ensino, e este, nesse laço, com sua teoria alcança a prática, completando, assim, o ciclo da formação universitária. Há que se mencionar ainda, além da presença de professores, alunos, técnicos administrativos e outros funcionários que movimentam a escola, a presença de um patrimônio vivo, composto por máquinas de toda sorte (mecânicas e tecnológicas, analógicas e digitais, hardwares e softwares) em pleno funcionamento, com o qual convivemos diariamente, ensinando e aprendendo.

A história da Escola de Design é a história de como mentes livres, inquietas e criativas colocaram seus talentos a serviço da sociedade capacitando gerações de profissionais contribuindo para a configuração de um mundo material que se pretende cada vez melhor. O espírito aberto e colaborativo que sempre a caracterizou virá com seus alunos e professores ao encontro dessa convergência e sincronicidade. Pessoas, de diversas regiões do Estado e do país serão, simultaneamente, público interessado e ativo do Circuito Liberdade, mas, principalmente, os agentes multiplicadores de uma cadeia de comunicação e promoção do seu significado e função na sociedade. (LAB_ED NA PRAÇA)

Esse velho modo de transmissão pela experiência e pelo desejo de um mundo melhor deve se manter na nova escola. Quanto ao que é novo, é sempre bem-vindo. O prédio, os planos, o futuro a se dispor desde já. Uma nova Escola de Design, num estético convívio com a praça, seus equipamentos culturais e seus agentes e com as pessoas que por aqui, por algum motivo, circulam. E, claro, aos alunos, mais do que tudo, esperamos revelar um verdadeiro admirável mundo novo.

Referências
JORNAL DA UEMG. Maio de 2015.
LAB_ED NA PRAÇA. Slides de apresentação da Escola de Design na Praça da Liberdade. Belo Horizonte, Laboratório de Design Gráfica da Escola de Design da UEMG, 2019. Inédito.
ALONSO, Paulo Henrique. Guia da Arquitetura Modernista de Cataguases. Cataguases: Instituto Cidade de Cataguases, 2012.
CENTRO DE ESTUDOS EM DESIGN DE AMBIENTES. Escola na Praça. Belo Horizonte, 2018. Escola de Design UEMG, 2018, 70 p. Relatório.
COSTA, Joseana; MAGALHÃES, Cristiane Maria; RABELO, Mariana; BAGGIO, Vanessa; BRUNO JR., Jarbas. Inventário qualitativo do prédio do IPSEMG. Memória Arquitetura Ltda., 2007, 129 p. Relatório.
FRAGA, Heloisa Helena Maciel; FRANCO, Lizandro Melo. Prédio do IPSEMG – instalação da Escola de Design da UEMG: diagnóstico e levantamentos. CGP – Consultoria, Gerenciamento e Planejamento Ltda. 2013, 44 p. Relatório.
MIRANDA FILHO, Alonso Lamy. Obra Escola de Design na Praça. Belo Horizonte, 2020. Entrevista concedida a Giselle Safar.
PENNA, Mara Galupo de Paula. Obra Escola de Design na Praça. Belo Horizonte, 2020, Entrevista concedida a Giselle Safar.
ROSA, João Guimarães. Fita verde no cabelo (Nova velha estória). In: ROSA, João Guimarães. Ave, palavra. 6. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
ROSA, João Guimarães. Tutaméia: terceiras estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.
O EDIFÍCIO da Escola de Design na Praça da Liberdade. Disponível em: Acesso em 04 out. 2020.
CIRCUITO LIBERDADE. Disponível em: Acesso em: 04 out. 2020.
Acesso em: 04 out. 2020.

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