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Sob o jugo do nazismo

Patrick Modiano revive em sua obra alguns dos momentos mais críticos da história da França: a ocupação alemã, a colaboração e a resistência contra o nazismo. Este artigo segue o exercício de memória do Nobel de Literatura, pinçando alguns fatos marcantes daquela época.
Quando invadiu a Polônia, em 1o de setembro de 1939, Hitler colocava em prática o seu plano de garantir um “espaço vital” (lebensraum) aos arianos. Segundo o Führer, o domínio do leste europeu garantiria os recursos para a supremacia alemã sobre os povos inferiores. O plano de expansão logo englobou quase toda a Europa, com variações em cada país. A Polônia, por exemplo, tornou-se o epicentro dos campos de extermínio. Já a França teve um destino diferente: virou o paraíso dos colaboracionistas.
O maior deles foi o marechal francês Philippe Pétain, que assinou um armistício com Hitler em 1940 e se tornou o líder de um governo fantoche: o Regime de Vichy, no centro-sul da França. Os alemães ocuparam o norte do país. Na prática, tiveram pleno controle sobre o território francês até 1944.
A ocupação nazista instalou uma paranoia na sociedade francesa. Todo cuidado era pouco para não cair nas garras da Gestapo, a polícia secreta do III Reich. Judeus, comunistas, antifascistas, membros da resistência (maquis) e de outras minorias perseguidas eram deportados para centros de detenção como Drancy, no subúrbio de Paris. De lá, seguiam em trens de gado para Auschwitz e outros campos da morte.
O domínio nazista também piorou a qualidade de vida da maioria dos franceses. A escassez de combustível e os problemas de abastecimento provocaram apagões e uma disparada nos preços. Em Paris, o valor dos alimentos se multiplicou por 6 entre 1939 e 1944. Quase 300 mil pessoas dependiam de refeitórios comunitários para sobreviver. Pior: a dieta pobre em vitaminas contribuiu para surtos de doenças.

Os meandros da colaboração

A colaboração é um espectro: vai desde a cooperação sutil, o oportunismo e a afinidade ideológica até ações deliberadas a favor dos ocupantes. Na França foi assim. Muitos colaboracionistas eram pacatos cidadãos que delatavam vizinhos judeus à Gestapo; já outros integraram forças paramilitares como a Milice – que caçava os membros da resistência.
As delações à Gestapo não eram feitas só por antissemitismo ou fervor nacionalista. Também ocorriam por motivos bem mais triviais, como disputas entre vizinhos, rixas de amantes e vingança contra colegas de trabalho. Tal como ocorreu na Alemanha, o regime de Vichy fomentou uma sociedade policial em que todos eram denunciantes e potenciais denunciados.
Um capítulo especialmente cruel desses anos foi a sujeição das mulheres. De 1940 a 1943, os alemães tiveram cerca de 60.000 filhos ilegítimos com as francesas, segundo o historiador britânico Michael Burleigh. Os soldados  nazistas se aproveitavam da vulnerabilidade das jovens parisienses, muitas delas famintas ou desesperadas com a deportação dos maridos.
Por outro lado, também houve mulheres que se aliaram de bom grado aos nazistas. A estilista Gabrielle “Coco” Chanel foi uma delas. No livro Sleeping with the Enemy (“Dormindo com o Inimigo”), o jornalista americano Hal Vaighan oferece sólidas evidências de que Chanel trabalhava para a Abwehr, a inteligência militar alemã. Era a agente 7124, codinome Westminster. E mantinha um romance com o barão Hans von Dincklage, espião da Abwehr.
A atriz e modelo russa Mara Tchernycheff também se aproveitou do jugo nazista em Paris. Protegida por Henri Chamberlain, chefe da Gestapo na França, ela faturou alto com o contrabando de roupas e o mobiliário das casas dos judeus deportados. “Mara foi amante de Hans Leimer, um oficial da SS [a poderosa organização paramilitar nazista] que distribuía mercadorias confiscadas pela Wehrmacht [Forças Armadas Alemãs]”, diz o pesquisador Cyril Eder no livro Les Comtesses de La Gestapo (“As Condessas da Gestapo”).
Após a guerra, os franceses rasparam a cabeça de mulheres acusadas de colaborar com o inimigo. As que haviam trabalhado para os alemães como cozinheiras e secretárias também foram alvos da humilhação. Coco Chanel teve mais sorte: mudou-se para a Suíça e manteve intocável o seu penteado.
Hoje sabemos que muitas empresas francesas também se identificaram com a ideologia nazista. Foi o caso da gigante de cosméticos L’Oreal, fundada por Eugène Schueller – financiador do grupo fascista La Cagoule. Nos pós-guerra, a L’Oreal contratou membros da Cagoule para cargos executivos. O principal deles, Jacques Corrèze, foi CEO da subsidiária da empresa nos EUA. Corrèze fez questão de adquirir a Helena Rubinstein, firma de cosméticos fundada por uma judia – como mostra o livro O Perfume Amargo (Imago), do historiador Michael Bar-Zohar.

A saga da Resistência

Claro que boa parte da população francesa não ficou de braços cruzados, opondo-se aos ocupantes de várias formas. A começar pela resistência não violenta. Muitos cidadãos mostraram-se indiferentes à avalanche de soldados alemães que chegavam a Paris. Não respondiam às perguntas que os soldados faziam, por exemplo, dizendo não entender nada do que falavam.
Alguns franceses criaram jornais clandestinos como o Libération para expressar seu repúdio a Vichy e à ocupação. O Libération promoveu o boicote de filmes e revistas pró-alemães, como o periódico fascista Gringoire. Para outras pessoas, contudo, a única chance de derrotar os soldados nazistas era pegar em armas também. Gente como os engenheiros elétricos Abraham Polonski e Lucien Lublin, que em 1942 fundaram o Armée Juive (Exército Judaico). O grupo começou treinando jovens em técnicas militares e chegou a ter 2.000 membros espalhados por Paris, Toulouse, Nice e Lyon.
“O Armée Juive sabotou instalações alemãs e recrutou informantes, além de matar colaboradores e agentes da Gestapo”, diz o pesquisador Patrick Henry no livro We only know men: The Rescue of Jews in France During the Holocaust (“O Resgate de Judeus na França Durante o Holocausto”). Em 1944, Polonski e Lublin uniram o AJ a outros grupos guerrilheiros, o que ajudou a libertar a França do domínio alemão. Depois da guerra, Lublin criou a Sociedade para Proteção de Crianças Judias, que enviou diversos sobreviventes a Israel.
Outro baluarte da resistência na França foi Joseph Bass, fundador do Service André (Comitê de Ação Contra a Deportação, na sigla em francês). A partir de 1942, auge do Holocausto, Bass salvou centenas de judeus franceses das câmaras de gás. Contou com a ajuda de protestantes e católicos para confeccionar documentos falsos e contrabandear crianças judias para zonas francesas que abrigavam refugiados. Entre elas a comuna de Chambon-sur-Lignon, no sudeste do país.
Histórias como essas mostram que nenhum país está livre de cair na mesma armadilha que a Alemanha caiu lá atrás. Então é bom que a memória sobre o que aconteceu ali continue viva. Para que não se repita.
* Eduardo Szklarz é jornalista e autor do livro “Nazismo: Como ele pôde acontecer” (Ed. Abril/Superinteressante, 2014).

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