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Marcos para a construção coletiva de um festival

Por Julia Guimarães
Editoria Elisa Belém

Em 31 de janeiro de 2008, o Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT-BH) tornava-se oficialmente Lei Municipal[1]. Isso significa dizer que, a partir dessa data, a realização do festival a cada dois anos passou a ser obrigatória, independente das preferências e humores de cada gestão. Dez anos mais tarde, o FIT-BH daria outro passo significativo rumo à sua consolidação como política efetivamente pública da cidade. No início de 2018, foi anunciado que a equipe curatorial de cada edição seria escolhida por meio de edital, a partir da seleção de propostas vindas da sociedade civil. 

Em função dessa reconfiguração nas “regras do jogo” da estrutura do festival, a edição 2018 do FIT-BH – que foi realizada entre 13 a 24 de setembro, já com a curadoria selecionada via edital – ajudou a construir alguns marcos históricos para os próximos anos. Dentre eles, a existência de um projeto de curadoria previamente definido a costurar a programação. E também a presença de uma equipe curatorial muito mais diversa que nas edições anteriores, formada em sua maioria por negra(o)s e mulheres.

 Idealizada pelas curadoras Luciana Romagnolli (jornalista e crítica teatral), Soraya Martins (atriz e pesquisadora) e Grace Passô (atriz, diretora e dramaturga), e pelos curadores-assistentes Anderson Feliciano, Daniele Avila Small e Luciane Ramos, a programação do FIT-BH 2018 foi traçada em diálogo com o conceito de corpo-dialeto. Pela primeira vez na história do festival, houve um desenho curatorial claramente demarcado a atravessar as diversas atividades do evento, como os intercâmbios, as oficinas, espetáculos, shows e cobertura crítica. Na prática, isso significa dizer que uma ação foi pensada como mecanismo para potencializar a reflexividade de outra.           

Por outro lado, as reverberações do conceito de corpo-dialeto – centrado na valorização de presenças que questionam lugares de suposta “neutralidade” do teatro, assim como na potência inventiva de línguas e linguagens plurais – foram vivenciadas pelos espectadores de modos diversos durante o festival. Por exemplo, em diálogo com o espetáculo Quaseilhas, da plataforma Araká (Bahia), apresentado inteiramente em Iorubá, da família de línguas nigero-congolesas. Ou da montagem mineira Rua das Camélias, da Cia. Vórtica de Teatro (BH), na qual o público era convidado a adentrar minúsculos quartos de um hotel no centro da cidade para conhecer, por uma via íntima e convivial, as histórias de vida de prostitutas da rua Guaicurus[2].

Nas entrelinhas do conceito de corpo-dialeto, o que se antevê é a singularidade de corpos e subjetividades historicamente ausentes da tradição teatral, ou então comumente tratados por representações estereotipadas e redutoras. Como observa a curadora Soraya Martins[3], não se trata de pensar que essa edição do FIT-BH teria sido “temática” ou “atual”, ao articular em sua programação presenças e representações plurais de grupos sociais minorizados. E sim que, ao incluir tais grupos, o festival ajuda a ampliar a ideia acerca daquilo mesmo que se entende por teatro.

A sobreposição entre esses dois marcos históricos do 14º FIT-BH – a escolha, via edital, de um projeto curatorial previamente definido, aliado à presença inédita de uma curadoria majoritariamente negra e feminina – parece ter também reverberado na presença de uma série de obras cênicas que buscavam desnaturalizar imaginários sociais hegemônicos.

É o caso do espetáculo A invenção do Nordeste, do grupo Carmin (RN). Nele, as idealizações sobre o que seria (ou deveria ser) o nordestino surgem desconstruídas, ao mesmo tempo em que se desvelam as figuras e fatos históricos responsáveis por “inventar” uma suposta ideia de Nordeste. Em direção semelhante, obras como Black Off, de Ntando Celle (África do Sul/Suíça) e Isto é um negro?, do grupo Chai-na(SP) exploram a autoironia para devolver reflexivamente ao espectador – que em festivais de teatro ainda segue sendo predominantemente branco – a fantasia dos exotismos e de uma suposta igualdade do “nós” que compõe as comunidades teatrais, assim como o jogo com o riso para desvelar lugares menos evidentes do racismo.

Também a partir do diálogo com essas e outras obras, seria possível pensar que as questões identitárias foram tratadas nessa edição do FIT-BH como meio e não como fim. Tal perspectiva estaria sintetizada na frase da artista Ntando Celle, em Black Off, quando diz ao público: “Eu estou aqui, eu sou negra, mas não estou aqui para ser negra”. Em suas entrelinhas, o que parece afirmar-se é a valorização da existência em sua dimensão de multiplicidade e indeterminação, para além da perspectiva identitária. Ao mesmo tempo, a frase sublinha a necessidade de demarcar identidades como modo de se produzir reconhecimento e justiça diante de opressões históricas e cotidianamente reiteradas sobre grupos sociais específicos.   

Em Eve, de Jo Clifford (autora da conhecida e polêmica peça O evangelho segundo Jesus, Rainha do céu), somos também convidados a ampliar nosso entendimento sobre o universo transgênero em cruzamentos que desafiam aproximações mais corriqueiras a esse contexto. Em chave autobiográfica, Jo nos conta passagens de sua vida, como o casamento com a companheira Susie – com quem teve duas filhas – seu passado como ‘John’, sua percepção de que havia nascido no papel social errado e o descolamento entre gênero e corpo biológico: “Nós não somos nossa genitália”, sintetiza a artista, em outra frase emblemática para ampliar e tornar mais complexa a noção de corpo-dialeto que norteou o festival.

É fato que esta edição do FIT-BH foi também marcada por duas questões que precisam ser debatidas e, se possível, solucionadas nas próximas. Uma delas diz respeito ao tempo destinado ao trabalho da produção e curadoria. É consenso entre curadores de edições anteriores a demanda de se ter pelo menos um ano de trabalho para construir uma grade razoável de espetáculos.

 Embora o prazo curto não tenha comprometido substancialmente o desenho curatorial do evento – que trouxe obras de extrema contundência estética e reflexiva – é possível que a esfera mais afetada pela temporalidade reduzida para a realização do festival tenha sido sua própria divulgação. Evidência disso é a escassez de material publicitário do FIT-BH pela cidade antes e durante o festival, além de diversos ruídos vinculados à venda de ingressos e divulgação da programação.

Ao mesmo tempo, muitos teatros não tiveram sua lotação máxima alcançada, o que costumava ser a regra em edições anteriores. O tradicional Ponto de Encontro do FIT-BH, realizado no Parque Municipal, assim como algumas palestras, também estiveram aquém do seu potencial de alcance. No balanço desta edição, o público geral foi de 25 mil pessoas, número menor que o da edição passada, de 48 mil pessoas. E também da média histórica, com público geral superior a 80 mil. Embora demande levantamentos específicos, é muito provável que exista uma relação entre o tempo curto de produção do festival, a escassa divulgação e a redução do público, aliado também a uma redução orçamentária nas edições mais recentes do evento.

Parece importante, contudo, não incorrer em um discurso simplista que associa a decrescida de espectadores do FIT-BH 2018 à densidade do projeto curatorial desta edição. O fato de haver um pensamento claro e aprofundado na programação não significa que as obras tivessem menor potencial de diálogo com o chamado “grande público”. Pelo contrário, o fato de uma atividade alimentar a outra pode ser pensado como um bem-vindo trabalho de mediação. Além disso, a existência de diversos espetáculos que buscavam valorizar, por via de espelhamentos e/ou estranhamentos, o diálogo entre palco e plateia de modo mais horizontal pode ser pensado como fator igualmente favorável à formação de espectadores.

 Outra possível consequência do curto tempo para realização da curadoria do FIT-BH foi a de não ter aparecido, nesta 14ª edição, uma grade forte de espetáculos de rua. Embora outras curadorias já tenham chamado atenção ao fato de que a seleção de criações voltadas para esse espaço seja um desafio constante para os festivais – por sua própria escassez no cenário nacional e internacional – a rua não apenas está no nome do festival belo-horizontino como também já protagonizou alguns de seus momentos mais marcantes. Este parece ser um aspecto que merece estar no centro das preocupações das próximas curadorias, inclusive como modo de intensificar o caráter público e democrático do evento.

No limite, a proposta de pensar coletivamente a construção do festival tem a ver com a importância do FIT-BH não apenas para a classe teatral, mas para a cidade como um todo. Trata-se de um evento que se mistura com a própria história recente de Belo Horizonte, pois diz respeito a como imaginamos e percebemos a cidade. Por isso mesmo, a intensificação do diálogo com a sociedade civil, viabilizada pela escolha da curadoria e produção via edital público, merece ser intensamente celebrada e debatida. E como demanda para o ano que se inicia, resta aguardar – e exigir – a abertura dos próximos editais com a antecedência necessária para uma plena e coletiva construção do festival.


[1] A Lei nº. 9517 – que institui o FIT-BH como evento oficial a ser realizado bienalmente pela Prefeitura, por intermédio do órgão municipal responsável pela área de cultura – é originária do Projeto de Lei nº 835/06, de autoria do Vereador Arnaldo Godoy (PT).

[2] Famosa região de prostíbulos de Belo Horizonte.

[3] Em entrevista para a revista Continente, de Recife (PE). Link: https://www.revistacontinente.com.br/secoes/entrevista/o-teatro-como-expansao-humana

Foto: Alexandre Guzanshe/FIT-BH/divulgação

Júlia Guimarães
Julia Guimarães é pesquisadora, professora, crítica teatral e jornalista. É Pós-Doutoranda em Artes Cênicas na UFMG e concluiu seu Doutorado na mesma área pela ECA/USP, com pesquisa em teatro contemporâneo. Atuou como crítica e repórter de artes cênicas nos jornais O Tempo e Pampulha.

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