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A hora e a vez delas Tempo de cinema de mulheres

Este texto foi o 2o. colocado no II Concurso de Jornalismo do Letras.

Por Lara Alves

Uma mulher constrói o próprio barracão e a outra cuida dos filhos. A câmera está nos becos do bairro Juliana, região periférica de Belo Horizonte. Um filme que já nasceu clássico, feito por mulheres sobre mulheres. “Baronesa”, de Juliana Antunes, contraria as expectativas e é exibido em inúmeras salas comerciais ao redor do país já tendo angariado dez prêmios e sido selecionado em mais de 50 festivais.

O papel da mulher no set de filmagem, na frente e atrás das câmeras, nunca foi tão discutido quanto nos últimos anos. Desde o período da retomada liderado por Carla Camurati com seu enigmático “Carlota Joaquina”, primeiro filme nacional da década de 1990 a levar mais de um milhão de pessoas ao cinema, até a equipe majoritariamente feminina de “Baronesa”, as trabalhadoras do cinema brasileiro têm conquistado com muita resistência os espaços negados a elas historicamente.

A importância da representatividade e da presença das mulheres no cinema margeia toda a necessidade de que essas personagens conquistem o direito de narrar as próprias histórias. “Uma das questões mais sérias sobre o machismo no cinema é que os roteiros são majoritariamente realizados por homens. Então quais são as histórias que estão sendo contadas? Sobre quem elas falam? Se são sobre personagens femininas, elas são complexas e densas? Elas são interessantes? Elas são instigantes? Ou são mulheres que estão falando sobre homens?”, indaga a jornalista e realizadora Camila Bahia Braga, também responsável pela produção executiva de “Baronesa”.

Uma das comprovações da estrutura machista no cinema é que a grande porcentagem dos filmes produzidos foi reprovada no teste de Bechdel, uma avaliação que questiona se uma obra possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. Na lista dos filmes que bombaram no teste está “Taxi Driver”, “Forrest Gump” e até a animação “Procurando Nemo”.
Apesar da luta diária, o cinema feito por atrizes, diretoras e produtoras no Brasil ainda percorre uma trajetória que beira a clandestinidade, e seus trabalhos tendem a ser silenciados. É exatamente isso que o relatório divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) no começo deste ano aponta: as mulheres dirigiram apenas 29 dos 143 filmes lançados em 2016, o equivalente a 20,3% dos lançamentos.

O recorte racial denota um problema ainda maior: mulheres negras não dirigiram e nem escreveram longas-metragens lançados nas salas brasileiras no mesmo ano. E foi apenas no ano passado que a Mostra de Tiradentes, teve a primeira participação de uma curadora, Lina Foster. Em cena o contexto também não é diferente, uma vez que personagens femininas em geral têm menos falas e mais cenas de nudez que personagens masculinos, e as mulheres negras são o grupo menos representado em frente e atrás das câmeras.

Mesmo com tantos empecilhos, mulheres negras têm conquistado, ainda que timidamente, cada vez mais espaço. Exemplo disso é a Mostra Diretoras Negras no Cinema Brasileiro, que rodou o país com o apoio do Sesc e percorreu a trajetória de pioneiras como Adélia Sampaio e cineastas contemporâneas como Sabrina Fidalgo. “As mulheres negras ainda estão num lugar mais marginal que as mulheres brancas. Mas há uma série de mulheres negras no Brasil que estão movimentando esse cenário. E quando as mulheres negras lutam, elas conquistam melhorias para as mulheres no cinema e as pessoas negras no geral no cinema”, avalia a curadora da mostra, Kênia Freitas.

Qual o lugar da mulher?

Se diretamente atrás das câmeras nas funções que representam o poder criativo de um filme (direção, roteiro, direção de fotografia, montagem) as mulheres ainda são poucas, na produção e na assistência acontece exatamente o contrário.

“O papel do homem no cinema se mantém como o do ‘artista’. A ideia de que o homem é a cabeça do projeto, o único responsável pelo pensamento artístico, que possui força para poder operar uma câmera. Isso dificulta imensamente a inserção de mulheres em áreas de criação no mercado”, afirma a produtora Analu Bambirra, que integra a Anavilhana Filmes, ao lado da diretora Marília Rocha.
Cargos como a produção, ligados aos cuidados, são entendidos nos sets de filmagem como majoritariamente femininos, uma visão que tem fortes raízes no machismo estrutural.

Para Camila, o entendimento do lugar da produção como um lugar de mulheres delimita os espaços delas no cinema. “A produção tem um quê de servidão. Normalmente são funções ocupadas por mulheres porque somos entendidas na sociedade como responsáveis pelo cuidado. É muito raro ver um homem na produção”, afirma. Com filmes de baixo orçamento, a situação costuma ainda ser pior: a mulher precisa se desdobrar. “A Juliana Antunes costuma contar que precisou passar muito café e picar muita fruta em set, transitar por diversas funções inclusive subalternas até alcançar a direção”, conta Camila.

A jornalista Débora Mano, que vem realizando um documentário sobre as mulheres no cinema belo-horizontino, também coleciona situações de machismo vivenciadas nos bastidores. “Enquanto estagiária fui fazer um trabalho em que o diretor cumprimentava todos os homens e passava reto por mim. Os únicos momentos em que ele se dirigia a mim era para me chamar de ‘florzinha’ e pedir para eu ficar na frente da câmera para ele testar o foco”, conta.

Tempo de resistência

O rompimento do cerco liderado por homens no cinema brasileiro só aconteceu graças a estratégias de resistência pensadas pelas realizadoras e pelas instituições que acreditam na paridade de gênero como um caminho para um cinema mais plural. A Ancine, por exemplo, abraçou a luta e valoriza a diversidade nas comissões julgadores e o Ministério da Cultura criou a linha “Carmem Santos” dentro do edital de apoio à produção de curta-metragem, em que 15 dos 45 curtas aprovados são de mulheres proponentes.

Acima das iniciativas públicas, o que fez movimentar o cenário foi efetivamente uma união das mulheres a partir de uma tomada de consciência no sentido de reconfigurar as relações. “Jamais houve iniciativa dos homens, esse não é o caminho da revolução feminista. Tudo aconteceu a partir do momento que nós começamos a pensar ‘quando eu for compor equipe, vou lutar para colocar mais mulheres’, isso porque sempre, sempre, em 100% das vezes, vai haver uma mulher tão boa quanto ou melhor que um cara”, afirma Camila que também integra o Cineclube Aranha, o primeiro cineclube feminista de Belo Horizonte, onde filmes de realizadoras são exibidos mensalmente.

Outro projeto para valorizar as mulheres é o site “Mulher no Cinema”, da jornalista Luísa Pécora. O portal assume uma postura muito combativa no que tange o empoderamento feminino na sétima arte. “Houve um aumento da discussão sobre o lugar da mulher no cinema e esse foi o primeiro passo para ocuparmos mais lugares. Agora é preciso ver como esse debate vai impactar na prática. Os números ainda não sofreram nenhuma mudança de fato significativa”, avalia.

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