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A garota milanesa

Por Alice Laterza
Editoria Ana Caetano

Alda Merini foi uma importante poeta italiana nascida em 21 de março de 1931, em Milão. Começou a escrever muito nova e, com dez anos, vence o Premio Giovani Poetesse Italiane. Em 1950, participa da coletânea Antologia della poesia italiana 1909 – 1949, organizada pelo poeta e crítico literário Giacinto Spagnoletto. Finalmente, em 1953, com apenas 22 anos, publica seu primeiro livro: La Presenza di Orfeo, obra for-temente inspirada por Reiner Maria Rilke. Apesar de possuir uma carreira promissora Alda Merini teve que abandonar os estudos durante sua adolescência para ajudar com as despesas de sua casa, que recentemente havia sido destruída na guerra.

Também em 1953, no ano que tem sua primeira obra publicada, Merini se casa com Ettore Carniti, com quem tem quatro filhas. A poeta publica mais duas obras, e em 1962 é internada em um manicômio. A partir desse momento marcante em sua vida, inicia um silêncio literário, em que a escritora deixa de publicar textos inéditos. Esse período de silêncio dura todo o tempo em que Alda Merini passa pelo manicômio, em suas idas e vindas. Em 1984, então, Alda Merini interrompe seu silêncio publicando seu magnum opus: La Terra Santa, uma obra que mescla experiências místicas e elementos biográfios durante o tempo de internação. Nesse mesmo ano, casa-se novamente, dessa vez com Michele Pierri, em um casamento que dura quatro anos.

A poeta produziu muito durante sua vida e inclusive se aventurou na prosa, como na obra: L’altra verità. Diário di una diversa (1986), onde reúne poemas, cartas, recordações e pensamentos sobre sua experiência manicomial. Em 1996, Alda Merini foi candidata ao Prêmio Nobel de Literatura, indicada pela Academia Francesa. No dia 1º de novembro de 2009, morre Alda Merini com 78 anos.

A escritora milanesa, ainda que não tivesse uma formação acadêmica relevante, conquistou vários estudiosos e críticos literários com suas intensas palavras. O cineasta, poeta e crítico italiano Pier Paolo Pasolini foi um dos que se encantou com Alda Merini, chamando-a carinhosamente de “a garota milanesa”. Apesar de ser uma poeta renomada na Itália, apenas sua obra mais importante, La Terra Santa (1984), foi traduzida para o português, pela portuguesa Clara Rowland.

Através de suas palavras ora de doçura, ora de dor, Alda Merini explora diversas temáticas em sua produção poética: o amor, a religiosidade, a loucura, o abandono, e principalmente o sofrimento que experimentou tantas vezes em em sua vida. A seleção de poemas para essa edição busca retratar um pouco da essência poética de Alda Merini. O primeiro poema que se segue foi publicado pela primeira vez em La Terra Santa (1984), e o segundo, de tradução nossa, na obra Francesco. Canto di una creatura (2007). Os dois poemas podem ser encontrados também na obra que recolhe a poesia e prosa da escritora entre 1953 e 2009, intitulada Il suono dell’ombra (2018).

Le più belle poesie
si scrivono sopra le pietre
coi ginocchi piagati
e le menti aguzzate dal mistero.
Le più belle poesie si scrivono
davanti a un altare vuoto,
accerchiati da argenti
della divina follia.
Così, pazzo criminale qual sei
tu detti versi all’umanità,
i versi della riscossa
e le bibliche profezie
e sei fratello a Giona.
Ma nella Terra Promessa
dove germinano i pomi d’oro
e l’albero della conoscenza
Dio non è mai disceso né ti ha mai maledetto.
Ma tu sì, malediciora per
ora il tuo canto
perché sei sceso nel limbo,
dove aspiri l’assenzio
di una sopravvivenza negata.

Perché amo gli animali?
Perché io sono uno di loro.
Perché io sono la cifra indecifrabile dell’erba,
il panico del cervo che scappa,
sono il tuo oceano grande
e sono il più piccolo degli insetti.
E conosco tutte le tue creature:
sono perfette
in questo amore che corre sulla terra
per arrivare a te.

Os poemas mais belos
escrevem-se sobre pedras
com os joelhos em chagas
e as mentes aguçadas pelo mistério.
Os poemas mais belos escrevem-se
diante de um altar vazio,
rodeados de agentes
da loucura divina.
Assim, doido e criminoso como és,
ditas versos à humanidade,
os versos do resgate
e as profecias bíblicas
e és irmão de Jonas.
Mas sobre a Terra Prometida
onde germinam os pomos de ouro
e a árvore do conhecimento
Deus nunca desceu nem te amaldiçoou.
Mas tu sim, amaldiçoas
hora a hora o teu canto
porque desceste ao limbo,
onde inalas o absinto
de uma sobrevivência negada.

Por que amo os animais?
Porque eu sou um deles.
Porque eu sou a cifra indecifrável da relva,
O pânico do cervo que escapa,
sou o seu oceano grande
e sou o menor dos insetos.
E conheço todas as suas criaturas:
são perfeitas
neste amor que corre pela terra
para chegar até você.

(Traduzido por Clara Rowland)

Referências
BORSANI, Ambrogio. “Il buio illuminato di Alda Merini”. In: MERINI, Alda. Il
suono dell’ombra. Milão: Mondadori, 2018.
MERINI, Alda. A Terra Santa. Lisboa: Cotovia, 2004. Tradução de: Clara Rowland.
MERINI, Alda. Il suono dell’ombra. Milão: Mondadori, 2018.

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