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Rap, raça e psiqué: de Frantz Fanon a Tyler, the Creator

Por Gustavo Souza Marques,
aka Gusmão

Este artigo se propõe a revelar as possíveis conexões entre o pensamento de um dos maiores autores pós-colonialistas1 do século passado, Frantz Fanon, com as produções musicais de um dos artistas que está na vanguarda do rap mundial contemporâneo, Tyler, the Creator. Fanon enquanto intelectual, psiquiatra e ativista da causa negra nascido em Martinica, teve como foco estudar o impacto psíquico da ideia de raça em uma sociedade de hegemonia branca como acontece no ocidente e em suas colônias. Não obstante, Tyler, the Creator escreveu letras de teor bastante psicanalítico em seus três primeiros álbuns e tem trabalhado com a ideia de máscara branca2 em alguns de seus videoclipes mais recentes. Por essa razão, acredito ser propício olhar para o passado e buscar um referencial teórico que fuja da narrativa predominante de pensadores vindo do centro, optando por interpretar o trabalho de Tyler por um olhar periférico.

Tyler Gregory Okonma é o nome de batismo do empreendedor e multi-artista3 estadunidense Tyler, the Creator. Conhecido por seu prodígio artístico ao atingir relevância no meio da música rap a partir de seu primeiro disco de estúdio Bastard (2009) quando tinha apenas 18 anos de idade. Tyler fiou conhecido também por um uso bastante eficaz da internet como principal veículo propagador do seu trabalho já que antes disso, havia lançados algumas mixtapes e gravações demo por meio de seu grupo Odd Future que revelou outros nomes importantes do hip-hop estadunidense como Frank Ocean, Earl Sweatshirt e a banda The Internet. Pen-sando no contexto brasileiro, algo parecido aconteceu com coletivo de rap Quinto Andar no início dos anos 2000 quando fez relativo sucesso por meio da internet e foi um divisor de águas na forma como esse estilo musical era produzido no Brasil até então (tanto em termos sonoros, quanto de imagem e discurso)4. O Quinto Andar também ajudou a relevar nomes importantes no cenário nacional como De Leve, Marechal e Shawlin, também conhecido como Cachorro Magro.

P ara além do talento artístico expresso em suas batidas excêntricas com timbres distorcidos, andamentos descompassados e outras vezes apenas o acompanhamento do piano sem a presença do beat – elemento central da música rap – Tyler chamou a atenção também por suas letras ultrajantes. Em seus dois primeiros álbuns Bastard (2009) e Goblin (2011), Tyler projetava fantasias de estupro sobre Wolf Haley, um alter-ego que Tyler descreveu como um “cara ruivo”5 que se ele pudesse escolher ele seria, abandonando o seu sobrenome nigeriano Okonma, originário de seu pai ausente. Tal declaração por si só já é bastante intrigante, levando em conta que Tyler é negro e liderava a Odd Future, um grupo com ampla aceitação en-tre jovens brancos no EUA e mundo afora. Outro ponto importante nessa subversão psíquica e racial que Tyler empreendeu foi o fato de que essas narrativas ultraviolentas eram direcionadas a mulheres brancas. Sabendo que historicamente no Estados Unidos, homens negros viviam sob o risco de serem linchados por grupos de supremacia branca (Ku Klux Klan) apenas por supostamente terem olhado para as companheiras desses homens racistas, cabe também questionar como esta misoginia presente na fase inicial da música de Tyler não foi intencional a fim de realizar certas provocações no contexto racial estadunidense (sobretudo pelo fato de parte do seu público ser também composto por jovens brancas)6.

Todavia, o caráter complexo e controverso de Tyler não parava por aí, e no disco Goblin, fiou também conhecido pelo uso excessivo da palavra “faggot” (“viado”) – algo que rappers brancos como Eminem já fazia há tempos e o qual Tyler era fã nessa fase inicial. Antes que uma análise precipitada coloque o trabalho de Tyler como meramente homofóbico, vale lembrar que a Odd Future contava com integrantes assumidamente homossexuais como Frank Ocean e Syd, tha Kyd que colaboraram com Tyler em diversas faixas, e o mais surpreendente: o próprio Tyler veio a escrever um álbum inteiro como homossexual alguns anos depois, colocando em cheque a própria heteronormatividade pela qual fiou estigmatizado nos primeiros anos de carreira. Essa transformação aparentemente súbita ocorrida em Flower Boy (2017) não foi tão abrupta assim já que mesmo em sua fase ultrajante, Tyler já discutia abertamente suas frustrações com a própria masculinidade em letras confessionais que contrapunham as narrativas abusivas de início de carreira. Tais escritas psicanalíticas podem ser vistas em canções como “Bastard”, “Golden”, “Yonkers” e tantas outras que demarcaram os primeiros álbuns do artista.

Sobre tais questões, Fanon, em seu livro Pe-les Negras, Máscaras Brancas (1953) as pon-tua de forma nevrálgica. Indo desde desejos reprimidos em homens e mulheres brancas que fantasiam a genitália e a sexualidade do negro até mesmo em como a ideia de um sujeito estuprador é igualmente projetada sobre esse Outro em uma sociedade marca-da pela hegemonia branca. Em uma de suas passagens sobre essa questão Fanon coloca que (p. 165-166):

Sofrer da fobia de negros é estar apreensivo quanto ao biológico. Já que o negro é tido apenas como biológico. Os negros são animais. Eles andam pelados. E só Deus sabe o que acontece… Manonni disse depois: “Em seu ímpeto em identificar os macacos antropoides, Caliban, os negros, mesmo os judeus com as figuas mitológicas de sátiros, o homem revela que há pontos sensíveis na alma humana na qual o pensamento se torna confuso e no qual a excitação sexual é estranhamente ligada à violência e agressividade”. Mannoni inclui o judeu em sua escala. Eu não vejo nada inapropriado aí. Mas aqui o negro é o mestre. Ele é o especialista nessa matéria: quem disser estupro, está dizendo negro. (Tradução livre)

Em meio a isso, diversas questões surgem e a principal delas é se Tyler estaria propositalmente colocando o branco no papel de abusador ao devolver tais projeções de forma provocativa e incendiária ainda que isso tenha custado um discurso misógino – mesmo que declaradamente fictício – como meio de atingir esse fim. Trazendo essa reflexão para a fase posterior da música de Ty-ler, o quão emblemático é a superação desse discurso violento em seu trabalho, principalmente por ter se colocado como homossexual em seu quarto disco de estúdio Flower Boy diante de um público, mas sobretudo, críticos, que esperavam dele o contrário? Outro questionamento crucial em meio a tantas perguntas é: quem incute tantos estigmas nesse Outro e como desmantelar essas projeções nocivas sobre o povo negro.

No Brasil, não tem sido diferente com expoentes como Djonga e outros ainda pouco conhecidos pelo público como os artistas baianos Vandal e Underismo apoiando as pautas feministas e de outros grupos que antes não estavam tão à tona na música rap. Em tempos de retorno do discurso de ódio de forma direta e ampla no debate público – tanto no Brasil, quanto no Estados Unidos e outras partes do mundo –esse estudo se propõe a demarcar questões raciais, sociais, artísticas e culturais que não podem passar despercebidas. Essa escrita é apenas o esboço das reflexões às quais venho me debruçando e que não são simples, cabendo ainda muitas reflexões. Vamos juntos!

Referências:

1. Pós-colonialismo foi um termo alcunhado para os estudos que se dedicam a compreender a realidade social, histórica e cultural de países que foram colonizados tendo como principais autores, estudiosos vindos desses países ditos periféricos.

2. O trabalho mais célebre de Fanon se chama Peles Negras, Máscaras Brancas (1953), um estudo sobre o impacto do racismo na psique do povo negro, tanto na diáspora das colônias, quanto nos países chamados de Primeiro Mundo.

3. Adoto esse termo para descrever as diferentes frentes em que o artista em questão atua: rap, canto, produção musical, produções audiovisuais para televisão e internet, design de roupas, direção de videoclipes e um filmeinacabado com o mesmo título de seu terceiro disco de estúdio Wolf (2013).

4. Abordo melhor essa questão no meu mestra-do O SOM QUE VEM DAS RUAS: Cultura hip-hop e música rap no Duelo de MCs (2013), mais exatamente no subtópico “O rap deles”, presente no terceiro capítulo intitulado “O PAPEL DOS BAILES, SONS E FESTAS BLACK NA FORMAÇÃO DO HIP-HOP BRASILEIRO”.

5. YouTube: Tyler, The Creator interview | 2011 | The Drone Accessed on 10/07/19.

6. Um bom livro para se aprofundar nessa questão é We Real Cool (2004, pp. 63-64) da célebre autora bell hooks. A autora Penelope Eate também aborda essa questão em seu artigo Scribblin’ Sinnin’ Sh*t: Narratives of Rape as Masculine Therapeutic Performance in the Strange Case For and Against Tyler, The Creator (2013).

Gusmão é doutorando em música pela University College Cork (UCC), Irlanda, onde está concluindo pesquisa sobre essa temática. Redes sociais @gusmaomusic

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