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Miradouro da memória e do porvir: arcos do Viaduto Santa Tereza ligam diferentes gerações da literatura mineira

Este texto foi o 1o. colocado no II Concurso de Jornalismo do Letras.

Por Carolina Cassese

Em O Encontro Marcado (1956), o escritor Fernando Sabino estipulou: 50 metros. Na segunda edição do livro, uma alteração: 30 metros. Sabe-se que o Viaduto Santa Tereza (que liga o bairro homônimo e a região da Floresta ao Centro de Belo Horizonte) tem, na verdade, 14 metros de altura. O chute hiperbólico de Sabino retrata a empolgação daqueles que se arriscaram a escalar os arcos da estrutura. Não foram poucos. Diversas gerações de escritores não só aderiram ao ritual como fizeram referência ao Viaduto em suas obras. Atualmente, a região ainda segue culturalmente efervescente, com saraus, duelos de MC’S, shows e, especialmente, com a Rua Sapucaí, hoje uma referência de lazer na noite belo-horizontina. Mas qual seria o tamanho do viaduto nos dias atuais?

Construído em 1929 por uma equipe capitaneada pelo engenheiro Emílio Baumgart, o Viaduto teve seu projeto inspirado no neoplasticismo e na art déco. O primeiro grande escritor a praticar o “alpinismo urbano” por ali teria sido ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. Fernando Sabino, na obra já citada, conta que o poeta se aventurava nos arcos às três da tarde, “depois de tomar apenas um copo de leite”. Humberto Werneck, em O Desatino da Rapaziada, muda a versão e afirma que o escritor realizava suas escaladas à noite.
No livro de crônicas A Bolsa e a Vida (1962), o próprio Drummond registrou: “O melhor ponto para contemplar-te será o terraço de um edifício da Avenida Afonso Pena? (…) Prefiro o arco modesto do viaduto, miradouro da memória, onde tentei às vezes restaurar o romantismo, para consumo próprio e desprazer da polícia”. Esse “desprazer” faz referência ao episódio em que um guarda-civil ordenou que Drummond descesse do viaduto. Em resposta, o poeta teria desafiado o policial a subir nos arcos para pegá-lo, como relatou Pedro Nava, outro expoente do grupo, no livro Beira-Mar (1978).  

Representando a terceira fase do Modernismo (que se inicia em  1945), os escritores  Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, também conhecidos como os “quatro cavaleiros do apocalipse”, replicaram o ritual. Sobre essa repetição, Humberto Werneck comenta: “Essa turma pode ter acrescentado à aventura um componente de desafio literário, algo como um ritual de admissão no mundo das letras. E assim por diante, em cada geração. Naquela a que pertenço, a chamada Geração Suplemento, surgida na segunda metade da década de 60, houve quem repetisse o ritual, de olho, não em Drummond, mas na geração mais próxima, a de Fernando Sabino”.
A socióloga Luciana Teixeira de Andrade, autora do livro A Belo Horizonte dos Modernistas (2004), afirma que o movimento “tem uma relação muito forte com a cidade e com a experiência urbana”. Ela pontua também que a vida em Belo Horizonte foi alvo de interpretações ambivalentes e que o Viaduto se tornou um símbolo assim, tão marcante, por representar o elo entre um ambiente moderno e outro mais provinciano.
No texto “Arcos Sobre o Viaduto”, que compõe o livro Modernidades Tardias, organizado por Eneida Maria de Souza, a ensaísta Thais Drummond escreveu: “Hoje, os marcos seriam outros. Não se caminha mais sobre os arcos do viaduto, desafiando os limites entre a vida e a morte, como outrora fizeram os poetas. Suja e mal conservada, a ponte se dilui na paisagem urbana”. Matérias de grandes jornais mineiros também descrevem a construção como “poluída” e “abandonada” nos dias atuais. Mas há quem afirme que o Viaduto ainda carrega importância considerável para a geração vigente de escritores mineiros.
Professora da pós-graduação em Letras da PUC Minas, Raquel Junqueira considera que a construção segue sendo um símbolo de irreverência e liberdade da juventude. “As aventuras dos escritores no passado curiosamente se reproduzem hoje, de outro modo, com os encontros para as batalhas poéticas que ocorrem por lá”, diz. Afirma também que Belo Horizonte ainda é uma pulsante cidade literária, e cita o projeto “BH: A Cidade de Cada Um”, criado em 2003 pela Conceito Editorial. Livros sobre diferentes pontos da capital mineira (inclusive Viaduto Santa Tereza, de João Perdigão), integram a coleção e resgatam o conceito de memória afetiva.

Já a HQ Baixo Centro, idealizada pelo artista gráfico Jão, apresenta a região por meio de ilustrações. Lançado em novembro de 2015, sob o Viaduto Santa Tereza, o romance gráfico é ambientado na Estação Central de Metrô, na Sapucaí e nas fontes da praça Rui Barbosa. Em cena, estão dois jovens que caminham por regiões marcantes de Belo Horizonte. “Sobre a escolha do percurso que os protagonistas fazem, comecei a esboçar a história a partir de minhas andanças pela região, principalmente porque morei ao lado do Viaduto. Sempre passava por ali pensando que seria um ótimo cenário para uma trama de aventura, com as escadarias, becos e planos abertos”, pontua.

A poeta Ana Elisa Ribeiro (que recentemente representou Minas Gerais na Bienal de Val-de Marne, em Paris) entende que atual geração de poetas mineiros está espalhada pela cidade e vivencia experiências diversas de trânsito. Ela cita alguns pontos de BH que se mantêm emblemáticos para a cena literária, como a Rua da Bahia e o Viaduto. Ana Elisa, vale lembrar, esteve também entre os 200 poetas participantes do “Psiu Poético”, evento que aconteceu no Viaduto em março último. Com inspiração em Drummond, diversos escritores se apresentaram e recitaram poesias sob a construção. Na sequência, o grupo refez o trajeto habitual do poeta até a rua Silva Jardim, no bairro Floresta.

A autora entende que o Santa Tereza é um bairro que está no imaginário de todo poeta. “Filmes, canções, romances, poemas, ao tratarem de certos lugares, constroem representações que os modificam, os restauram, os eternizam. Deveríamos fazer mais isso por Belo Horizonte, alguns de nós por meio dos discursos”, conclui Ana. O artista Jão endossa: “Sempre senti falta de narrativas gráficas que tivessem a capital mineira como pano de fundo. É comum ver São Paulo, Nova York ou Tóquio nos quadrinhos, mas é mais difícil achar uma história que se passe aqui”, afirma.

A história da cidade é narrada também por pontos emblemáticos. Os arcos do Viaduto uniram gerações literárias e, hoje, são cenário para a correria dos dias de semana. Tornam-se palco cultural às sextas e aos sábados (ou diariamente, no Carnaval). A construção é ainda escolhida como espaço para ensaios fotográficos, e sua representação está presente até nas laterais dos ônibus, junto a outros símbolos marcantes, como a Igrejinha da Pampulha e o Obelisco da Praça Sete. Como Drummond definiu há 56 anos, o Viaduto é um miradouro das tantas memórias afetivas que carrega, mas também, podemos acrescentar, um mirante do porvir, com as novas gerações que se apropriam dos seus arcos.

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