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Appalachian Trail

“Porque todas as minhas viagens, no fundo, foram e são apenas uma fuga, não exatamente a fuga de um viajante e quem vive em uma grande cidade, a fuga perene do próprio Eu para o lado de fora, não a fuga de si mesmo, mas o oposto: uma tentativa de fuga deste tempo, deste tempo de técnica e de dinheiro, de guerra e de ânsia de riquezas.”
Herman Hesse, “O Viajante”
“Quanto tempo livre nós temos, e quanto poder isso representa?
Benton MacKaye, “An Appalachian Trail: A Project in Regional Planning”

Por Jeff Santos
Ainda era manhã do dia 23 de agosto quando dei os últimos passos da minha jornada. Subi, quase escalando, as pedras daquela última montanha, e coloquei minhas mãos na placa onde se lia: “Katahdin, Baxter Park. Elevação: 5.267 pés. Terminal norte da Appalachian Trail. Springer Mountain, Georgia, via A.T.: 2,189.1 milhas”. Eu estava no estado do Maine, no norte dos Estados Unidos, a poucos quilômetros da divisa com o Canadá. Nos últimos 131 dias eu tinha percorrido cada uma daquelas milhas. Eu havia chegado ali a pé.

Um pouco de história: a Appalachian Trail foi originalmente proposta em 1921 pelo conservacionista Benton MacKaye. Em um artigo para o Journal of the American Institute of Architects ele propôs um projeto de “recreação, recuperação e geração de empregos na região dos Apalaches”, uma cadeia montanhosa na costa leste dos Estados Unidos. Quando finalizada, em 1937, se achava que era impossível caminhar toda a extensão da trilha em uma única temporada. Até que Earl Shaffer, um veterano da Segunda Guerra Mundial, resolveu caminhar a trilha do sul ao norte para, segundo ele, “tirar a guerra do meu corpo”.

O interesse pela Appalachian Trail só cresceu nos anos seguintes. Virou livro, filme, documentário. Quando dei meu primeiro passo, no dia 15 de abril de 2017, outros 1.808 caminhantes já haviam começado a trilha esse ano. Ao final da temporada quase 4.000 pessoas, entre 2 e 82 anos de idade, se propuseram a cruzar a pé toda a extensão da trilha. Poucos conseguiram: três quartos deles não superaram os acidentes e os sofrimentos e ficaram no meio do caminho.

Ouvi falar sobre a trilha pela primeira vez há três anos. Tinha acabado de voltar de uma temporada no exterior, onde tomei gosto por caminhadas de longa distância. De volta ao Brasil comecei a percorrer longos caminhos: primeiro os 420 quilômetros do Caminho do Fé, uma via de peregrinação entre Tambaú e Aparecida, no estado de São Paulo. No ano seguinte saí de Diamantina e segui a Estrada Real por 1.200 quilômetros até Paraty, no Rio de Janeiro. Sempre a pé.

Desde que comecei a fazer esses passeios a pergunta que escuto com mais frequência é “por quê”? Por que andar 3.500 quilômetros, cruzar a divisa de 14 estados americanos, subir ao topo de mais de trezentas montanhas, uma elevação que, ao final, se equipara a subir e descer 16 vezes o Monte Everest? Não existe uma única resposta. Mas assim como Shaffer, busco nas caminhadas a extração de minhas guerras pessoais: a depressão, o isolamento, as incertezas, meus dilemas pessoais. Cito o filósofo dinamarquês Kierkegaard, que expressa bem meus sentimentos: “Eu, caminhando todos os dias, atinjo uma sensação de bem-estar e deixo pra trás todos os infortúnios: os melhores pensamentos me ocorrem enquanto caminhava, e não conheço pensamento tão pesado a ponto de não poder ser deixado para trás com uma caminhada”, dizia ele.

Além disso, acredito também na tese exposta pelo italiano Adriano Labbucci no seu excelente livro “Caminhar, uma revolução”. Diz o autor que “não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir, hoje dominante, que o caminhar. Ponto”. Caminhar é colocar em primeiro plano valores que estamos deixando de lado: a contemplação, o desapego, o contato direto com a natureza. Caminhar exige que a gente (re) aprenda a se relacionar com o tempo. É abandonar o excesso e voltar ao essencial: a apenas aquilo que lhe é necessário para os próximos dias de caminhada, sejam eles um final de semana ou os próximos meses. Citando de novo Labbucci: “o caminhar e a igualdade andam juntos: no excesso e na soberba não há igualdade, com excesso e soberba não se caminha”.

De volta à Appalachian Trail: durante aqueles quase cinco meses levei na mochila o básico: barraca, saco de dormir, uma capa de chuva, canivete, um fogareiro, uma troca de roupa. Minha comida era o suficiente para, em média, cinco dias. Quando cruzava uma estrada, pegava uma carona até a cidade mais próxima, reabastecia, e voltava pra trilha. A cada dez dias me dava ao luxo de dormir em um albergue (alguns deles tão imundos que chegava a trocar o preço da diária por trabalho, varrendo e limpando o lugar), tomar um banho, descansar por um dia. Peguei chuva, neve, sol. Encontrei ursos, veados, porcos-espinhos, pôneis selvagens. Ganhei dezenas de novos amigos. Passei por paisagens que poucos passaram e conheci um Estados Unidos que poucos tiveram o prazer de conhecer. Enfim, perdi (ou ganhei?) meu tempo ali, caminhando.

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