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Diário do vazio

Por Nathalia Greco
Editoria Felipe Cordeiro

29 de outubro de 2018

Agora contamos assim

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05 de janeiro de 2019

vazio oblíquo. Não é tão simples quanto parece, não é apenas um copo vazio que está cheio de ar. Uma vez li de Gonçalo M. Tavares que não é como oxigênio que absorvemos sem esforço. Mas já tentaram respirar ar rarefeito? Ar dos Andes, ar ancestral, de um povo que carrega uma cordilheira inteira nas costas? Não pode ser. Não é tão transparente e não é tão duro, nem fluido. Não tem peso mensurável, nem leveza sem cifras. Não é vago, não é presença, nem ausência. Não é uma mesa para dois refeita para um. Não são os furos da parede, marca de um antes com seus livros ainda no chão. Não são todas essas negativas, como não é oposto disso, assertivas, certeza. Talvez gesto, talvez movimento, pendular, de balanço do dia. De salvar o dia, como postulou Blanchot, experimentou Franz, Virgínia, Al Berto, João, Susan, Walter em viagem a Moscou. É nada. Um nada tortuoso, esparramado pelo chão de fracassos, de temores, de vida pulsante. Quiçá um nada que segura seu escape, seu dentro, seu fora, seu tudo, seu quase.

18 de junho de 2019

Sei Shonagon, escritora japonesa, escreveu seu Livro do travesseiro todo em listas. Há um ano faço listas seguindo o critério: Coisas que preciso fazer agora e Coisas que podem esperar. Há um espaço, há um ano, sem a marca prazerosa do “check” em vermelho.  Inspirada em Shonagon, segue uma lista vazia:

– o amor que não vem;

– depois a gente tira;


“trabalhe com o que gosta e não precisará trabalhar nem um dia”;

– conta bancária;

– uma escrita sem versão final.

29 de março de 2020

a casa. o tempo. os dias que passam, os dias que faltam, sem saber quantos. o “quando tudo isso passar a gente combina”. a casa-refúgio-escritório. a reforma que seria dentro, mas a fizeram fora. a orfandade. a cadeira presidencial vazia, ocupada por um nada beligerante que nos quer mortos, se não de doença, de fome. e o que te pesa, para além disso tudo, que coroa o nosso ato de sobreviver, acima de tudo sobreviver, é encarar o oco que se abre por uma leitura que te insulta, que não dá para terminar. Não por conta do discurso pronto, que vem com o seu raio coachizador, mas porque emerge de um lugar que não existe mais, ou não deveria mais existir na literatura. O tempo é um rio. Imperioso no seu curso, não teme levar embora consigo uma literatura cujos personagens, se fossem reais, apertariam o número que vem depois do 16 e antes do 18, não por maldade, mas por pura apatia de sua vida lotada de vazios e de frustrações não resolvidas. de uma vida inteira preocupada em nascer e morrer. Há vazios que nos fazem dizer “meu deus”, tempo de absoluta depuração, ainda no século XXI.

07 de janeiro de 2021

abro Grande Sertão depois de quase dez anos repousado em seu lugar de honra na estante. releio suas páginas e descubro lacunas que não haviam sido preenchidas antes. Riobaldo de antes não era tão vazio quanto o de agora, despovoado de coragem, cheio de valentia no corisco da bala. Diadorim, Diadorim sim, plena como um balão, flutua pelas veredas, prenhe de seus desejos de seguir a jagunçada. Antes eu vira apenas um amor que tinha tudo para ser e não foi, diria Bandeira, caso tivesse escrito essa prosa. Hoje, continuo vendo o vão no nome que ele não consegue dizer qual, mas vejo mais, vejo melhor, que sem isso, ser tão não existiria.

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